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Uma recolha de críticas da autoria de Lauro António, aparecidas em diversas publicações portuguesas.

domingo, junho 25, 2006

RON HOWARD:
“UMA MENTE BRILHANTE”

John Nash, prémio Nobel da matemática em 1994, está na base desta biografia, escrita para cinema por Akiva Goldsman, adaptando uma obra de Sylvia Nasar, e que Ron Howard dirigiu, com resultados interessantes em termos de narrativa, e um sucesso brilhante quer de um ponto de vista de bilheteira, quer no plano do reconhecimento público ao nível dos prémios, sobretudo em solo americano, onde o título cumpre os desígnios de alguma produção imaginada para conquistar nomeações de Oscars e ganhar a credibilidade intelectual – estamos mais uma vez na presença de uma personagem de excepção, de um destino individual que atravessa a doença e consegue superar-se pelo esforço pessoal. Um tipo de herói quotidiano que os americanos gostam de entronizar, normalmente com bons lucros.
John Nash não é, desde a sua juventude, desde os tempos de estudante na Universidade de Princetone, uma personalidade fácil, sequer “amável”. Arrogante e convencido (sintomas de algo que se virá a confirmar tempos mais tarde), procura sobretudo descobrir “a teoria original” que lhe reserve lugar no panteão da fama, sem se preocupar muito com a realidade concreta das aulas e do convívio. A competição é a sua referência. No final dos anos 40, um golpe de asa levá-lo-á à ideia de génio geradora de uma teoria que contradiz e ultrapassa Adam Smith e que revolucionou os dados matemáticos da época, tendo aceitação no campo da economia, da política ou da biologia. E da espionagem. Nash colabora então com os serviços secretos norte americanos, em plena guerra fria, decifrando códigos soviéticos.
É nessa altura que casa com Alicia, e que lentamente se sente envolvido por uma esquizofrenia que o leva a inventar interlocutores e imaginar perseguições sem igual. O seu futuro, de risonho passa a trágico, com prolongadas permanências em hospícios, curas com choques eléctricos, pesada medicação que lhe retira a potência e gera íntimos conflitos familiares, uma vida isolada, o alheamento dos trabalhos científicos e das aulas, enfim, a derrota de uma carreira. Seria, não fora a persistência de Nash e uma força de vontade inquebrantável, que o levaram a enfrentar conscientemente a crise e a tentar resolvê-la por si só. Daí ao Nobel e às canetas dos colegas de universidade depositadas na mesa onde almoça, como preito de homenagem, foi um passo. De gigante. De “uma mente bonita” (no americano) e “brilhante” (no português). De uma “mente” muito complexa, que os argumentistas aligeiraram e condensaram, deixando no esquecimento do “herói” um filho de uma outra ligação, uma prisão por suspeitas de homossexualidade, e a presença de extra terrestres nas suas alucinações persecutórias.
E o filme? Menos brilhante que “O Clube dos Poetas Mortos” (ainda que num mesmo registo), mais mediático que “O Professor” (Mr. Holland’s Opus), tão tortuoso ao nível da representação quanto “Shine” (que mereceria a Geoffrey Rush um Oscar, tal como “Uma Mente Brilhante” pode garantir a Russell Crowe segunda estatueta consecutiva, depois de “Gradiador”), “A Beautiful Mind” assinala inequívocos progressos na carreira de um actor (lembram-se dele em “American Graffitti”?) que passou a realizador e com esforçada competência vai construindo uma obra que, sem ter muito de pessoal, não deixa de despertar alguma curiosidade e por vezes certo encanto. Depois de uns anos de aprendizagem intensiva no campo do filme industrial sem memória, Ron Howard dirigiu alguns títulos saborosos, como “Splash” (1984) ou “Cocoon” (1985), passando pela epopeia “Backdraft” (1991), pelos escândalos da comunicação social em “The Paper” (1994) ou “Edtv” (1999), para culminar com a saga dos astronautas norte americanos, em “Apollo 13” (1995), e uma deambulação pela comédia natalícia em “Grinch” (2000). Nada de muito pessoal, como facilmente se infere da simples listagem, mas alguma competência técnica e um evidente empenhamento profissional.
Com “Uma Mente Brilhante”, Ron Howard não se furtando por vezes ao rodriguinho, opta quase sempre por um registo melodramático correcto e discreto, deixando brilhar as mentes dos seus actores e apagando-se atrás delas. Russell Crowe, bem apoiado nas muletas do costume, neste tipo de obras, recorre a tiques variados para mostrar a grandeza da sua representação. Jennifer Connelly (que já notaramos em “O Segredo dos Abbotts” ou “Pollock”), não precisa de muletas para mostrar todo o esplendor da sua arte. Magistral.
Com oito nomeações (que vão de melhor filme, realizador, actor, actriz secundária, argumento, montagem e música até à maquilhagem), arrisca-se a regressar a casa com alguns Oscars, sendo que o mais merecido é decididamente o de Jennifer Connelly. Mas o filme, o actor, o argumento e a música têm também algumas hipóteses.

UMA MENTE BRILHANTE (A Beautiful Mind), de Ron Howard (EUA, 2001), com Russell Crowe (John Forbes Nash, Jr.), Ed Harris (William Parcher), Jennifer Connelly (Alicia Nash), Christopher Plummer (Dr. Rosen), Paul Bettany (Charles Herman), Adam Goldberg (Richard Sol), Josh Lucas (Martin Hansen), Vivien Cardone (Marcee), etc. 134 minutos; M/ 12 anos. In “A Bola”, de 10.03.2002

3 Comments:

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