LA_Arquivo

Uma recolha de críticas da autoria de Lauro António, aparecidas em diversas publicações portuguesas.

sábado, junho 24, 2006

SCOTT HICKS:
“A NEVE SOBRE OS CEDROS”

Pode dizer-se que tudo já foi escrito e filmado. A possível originalidade de um novo livro ou de um novo filme está na forma como ele é concebido. Quer dizer: a originalidade não está tanto no que se conta, mas sobretudo na personalidade de que quem narra. A Neve Caindo sobre os Cedros fala de um tema pouco visto no cinema (os japoneses na América, após Pearl Harbour e após a II Guerra Mundial), mas a curiosidade maior do filme de Scott Hicks (o australiano que nos dera Shine), está no estilo encontrado pelo cineasta para o abordar.
A história parte de um romance de David Guterson, e foi adaptada ao cinema por Ronald Bass e o próprio realizador, e acompanha uma década da história da América, vista de uma pequena povoação de uma ilha onde a pesca ocupa predominantemente os seus habitantes, grande parte dos quais de origem nipónica. Ainda adolescentes, Ismhael apaixona-se por Hatsue e ambos se refugiam na floresta, por entre os cedros, para gozar este idílio de miúdos que descobrem dentro de si o pulsar de energias que desconhecem. Depois, os japoneses atacam Pearl Harbour, a América parte para a guerra, Hatsue separa-se de Isnhael que parte para a frente de combate, os janopens são colocados em campos de concentração nos EUA, e mesmo depois da guerra Ter terminado os preconceitos mantém-se. Tanto assim que, logo que um pescador aparece morto, enrolado nas redes do seu próprio barco, as pessoas começam a pensar no jovem japonês que casara com Hatsue, e que vai a tribunal, acusado deste crime.
Grande parte do filme passa-se em 1950, durante o julgamento. Esse o tempo real de Snow Falling on Cedars. Mas toda a obra vive de um constante vai vem (em forma de flahs back) entre o tempo real, as recordações dos amores de adolescência e a reconstituição dos momentos que antecedem a morte do pescador. Digamos que Scott Hicks se alonga demasiado nesse processo, encantado com a fotografia deslumbrante de Robert Richardson, e a direcção artística e os cenários, não menos notável, de Jeannine Claudia Oppewall, Doug Byggdin e Jim Erickson. O filme dura um pouco mais de duas horas, e quinze minutos a menos seriam benvidos, no computo geral. Mas a verdade é que o cineasta consegue uma envolvência de estilo muito curiosa, jogando com uma câmara particularmente movel, deslizando peals personagens e os cenários, com uma montagem que "liga", por vezes de forma admirável, tempos e situações diferentes, com uma banda sonora que se encarrega igualmente de unificar e prolongar cenas e significados.
Depois há momentos de quase experimentalismo formal, com uma inteligente montagem que vai lentamente organizando os flashs, integrando peças de um mesmo puzzle que espectador vai interpretando e re-interpretando a cada nova leitura. A beleza sufocante de 90% das imagens, rodadas numa paisagem invernosa de neve e chuva, com cores que alternam o gelo dos cenários com o calor das paixões, muito ajuda Snow Falling on Cedars, transformando-o numa obra certamente a não perder, muito embora longe do brilhantismo de uma obra-prima. Mas as obras primas são tão raras, e o cinema sensível e inteligente tão difícil de encontrar que este filme de Scott Hicks merece certamente a atenção do espectador.
De resto, há um longo plano que o cineasta não teve a coragem de cortar (honra lhe seja feita!) que merece figurar em todas as histórias do cinema, como um lição da arte de representar. Referimo-nos a um plano de Max Von Sydow, advogado de defesa, exaltando as virtudes de tolerância dos americanos nas alegações finais. Ver este plano e ganhar o dia. Um prodígio de emoção contida e de fulgor interpretativo.

***** A NEVE CAINDO SOBRE OS CEDROS (Snow Falling on Cedars), de Scott Hicks (EUA, 1999), com Ethan Hawke (Ishmael Chambers), Youki Kudoh (Hatsue Miyamoto), Rick Yune (Kazuo Miyamoto), Max von Sydow (Nels Gudmundsson), James Rebhorn (Alvin Hooks), James Cromwell (Juiz Fielding), etc. 127 min; M/ 12 anos.

1 Comments:

At 5:35 da tarde, Anonymous Anónimo said...

best regards, nice info video editing programs

 

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