LA_Arquivo

Uma recolha de críticas da autoria de Lauro António, aparecidas em diversas publicações portuguesas.

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

Os Melhores de 2006

Votação dos "10 Melhores Filmes de 2006"
por blogues portugueses de cinema:

Intruso:

-Uma História de Violência
-Match Point
-Nada a Esconder (Caché)
-Em Paris (Dans Paris)
-Lisboetas
-Voltar (Volver)
-Kiss Kiss Bang Bang
-O Céu Gira
-Uma Família à beira de um ataque de nervos (Little Miss Sunshine)
-Babel

brain-mixer:

Children of Men
V de Vingança
Munique
The Departed: Entre Inimigos
Casino Royale
Carros
Máquina Zero
Match Point
An Inconvenient Truth
Syriana

Sérgio Rodrigues:

Babel
Capote
Children of Men
Clerks II
The Departed
The Devil's Rejects
The Hills Have Eyes
Lady in the Water
The New World
Walk the Line

H.:

- The New World
- Marie Antoinette
- Breakfast On Pluto
- Le Temps Qui Reste
- Dans Paris
- Babel
- The Proposition
- United 93
- Water
- Match Point

cine-asia:


V for Vendetta
A Tale Of Two Sisters
Casino Royale
A Bittersweet Life
Brokeback Mountain
The Departed
Nobody knows
Match Point
The Matador
Lady In The Water

Dário Ribeiro:

Munich
Children of Men
The Departed
The Descent
The Prestige
007 - Casino Royale
World Trade Center
Miami Vice
Superman Returns
The Black Dahlia

Luis Silva:

1 - Tudo por um Sonho
2 - Munique
3 - Aposta de Risco
4 – Capote
5 - Coisa Ruim (este porque foi filmado na minha terra) 
6 - Identidade Kubrick
7 – Infiltrado
8 - O Código Da Vinci
9 - Velocidade Furiosa
10 - Profissão: Repórter

Hugo Alves:

Juventude em Marcha, de Pedro Costa
Les Amants Réguliers, de Philippe Garrel
History of Violence, de David Cronenberg.
Dans Paris, de Christophe Honoré
Little Miss Sunshine, de Jonathan Dayton, Valerie Faris.
A Criança, de Luc e Jean-Pierre Dardenne
Miami Vice, de Michael Mann
Matchpoint, de Woody Allen.
A Dália Negra, de Brian De Palma
O Novo Mundo, de Terrence Malick

Pedro Duarte:

-A Senhora da Água (Lady in the Water)
-Capote (Capote)
-Uma Familia à Beira de um Ataque de Nervos (Little Miss Sunshine)
-Babel (Babel)
-Rapace (Rapace)
-A Ciência dos Sonhos (La Science des rêves)
-Carros (Cars)
-Marie Antoinette (Marie Antoinette)
-Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth)
-Lisboetas (Lisboetas)

Kay:

Por ordem descendente:
- Doce Tortura (A Bittersweet Life)
- Nada a Esconder (Caché)
- Babel (Babel)
- The Departed: Entre Inimigos (The Departed)
- Voltar (Volver)
- Irresistível (Irresistible)
- Match Point (Match Point)
- Syriana (Syriana)
- Uma História de Violência (A History of Violence)
- Os Renegados do Diabo (The Devil's Rejects)

wasted blues:

01. The New World
02. The Departed
03. Volver
04. Munich
05. Paradise Now
06. Match Point
07. Little Miss Sunshine
08. Good Night, and Good Luck.
09. Lady in the Water
10. A History of Violence

Lauro António Apresenta:

Babel, de Alejandro González Iñárritu
Departed, The - Entre Inimigos, de Martin Scorsese
Maria Madalena (Mary), de Abel Ferrara
Marie Antoinette (Marie Antoinette), de Sofia Coppola
Match Point (Match Point), de Woody Allen
Munique (Munich), de Steven Spielberg
Novo Mundo, O (The New World), de
Terrence Malick
Prairie Home Companion, A - Bastidores da Rádio, de Robert Altman
Senhora da Água, A (Lady in the Water), de
M. Night Shyamalan
Voltar (Volver), de Pedro Almodôvar

Filmes votados até agora (10 de Janeiro de 2007):

007 - Casino Royale III
Amants Réguliers, Les
Babel IIIIII 6
Bittersweet Life, A II 2
Black Dahlia, The II 2
Breakfast On Pluto
Brokeback Mountain
Caché III 3
Capote III 3
Cars II 2
Children of Men III 3
Cielo Gira, El
Clerks II 2
Coisa Ruim
Colour Me Kubrick
Da Vinci Code, The
Dans Paris III 3
Departed, The: Entre Inimigos IIIIIII 7
Descent, The
Devil's Rejects, The II 2
Enfant, L’
Fast and the Furious: Tokyo Drift, The
Good Night, and Good Luck.
Hills Have Eyes, The
History of Violence, A IIIII 5
Inconvenient Truth, An III 3
Inside Man
Irresistíble
Jarhead
Juventude em Marcha, de Pedro Costa
Kiss Kiss Bang Bang
Lady in the Water IIIII 5
Lisboetas II 2
Little Miss Sunshine IIIII 5
Marie Antoinette IIII 4
Mary
Matador, The
Match Point IIIIIIII 8
Miami Vice II 2
Munich IIIII 5
New World, The IIIII 5
Nobody knows
Paradise Now
Prairie Home Companion, A
Prestige, The
Profissão: Repórter
Proposition, The
Rapace
Science des Rêves, La
Superman Returns
Syriana II 2
Tale Of Two Sisters, A
Temps Qui Reste, Le
That Thing You Do
Two for the Money
United 93
V for Vendetta II 2
Volver IIII 4
Walk the Line
Water
World Trade Center



Sexta-feira, Dezembro 29, 2006

ESTREIAS DE 2006

FILMES ESTREADOS EM PORTUGAL - 2006

2006/1//9
Irresistível (Irresistible)
O Perfume - História de um Assassino (Perfume: The Story of a Murderer)
Os Rebeldes da Bola (Os Rebeldes da Bola)
The Departed: Entre Inimigos (The Departed)
Uma Voz na Noite (The Night Listener)

2006/01/05
Correio de Risco 2 (Transporter 2)
Dick e Jane - Ladrões Sem Jeito (Fun with Dick and Jane)
Os Renegados do Diabo (The Devil's Rejects)
Rebeldes de Bairro (Green Street Hooligans)

2006/01/12
Kiss Kiss, Bang Bang (Kiss Kiss Bang Bang)
Máquina Zero (Jarhead)
Nada a Esconder (Caché)
Tudo por um Sonho (Dreamer: Inspired by a True Story)
Um Passeio Pela História (Le Promeneur Du Champs de Mars)

2006/01/19
Match Point (Match Point)
Onde Está a Verdade? (Where The Truth Lies)
Orgulho e Preconceito (Pride & Prejudice)
Primer (Primer)
Saw II - A Experiência do Medo (Saw II)

2006/01/26
Chupa no Dedo (Thumbsucker)
Gabrielle (Gabrielle)
Ladrão que Engana Ladrão... (The Wendell Baker Story)
Lavado em Lágrimas (Lavado em Lágrimas)
Memórias De Uma Gueixa (Memoirs of a Geisha)
O Libertino (The Libertine)
Rasto Mortal (Wake Of Death)

2006/02/02
Munique (Munich)
Na Escuridão (The Dark)
O Leopardo (Il Gattopardo)
Rent (Rent)
Wolf Creek (Wolf Creek)

2006/02/09
A Caixa Negra (La Boîte Noire)
Aposta de Risco (Two for the Money)
Dizem por aí... (Rumor Has It...)
O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain)
Pecado Capital (Derailed)
Tiros Certeiros (Dead Fish)

2006/02/16
Aeon Flux (Aeon Flux)
Bambi 2 - O Grande Príncipe da Floresta (Bambi II)
Os Três Enterros de um Homem (The Three Burials of Melquiades Estrada)
Syriana (Syriana)
Vai e Vive (Va, vis et deviens)
Walk The Line (Walk The Line)

2006/02/23
Capote (Capote)
Mrs. Henderson (Mrs. Henderson Presents)
O Céu Gira (El Cielo Gira)
Transamerica (Transamerica)
Zathura - Aventura no Espaço (Zathura: A Space Adventure)

2006/03/02
Agente Disfarçado 2 (Big Momma's House 2)
Boa Noite, e Boa Sorte (Good Night, and Good Luck)
Coisa Ruim (Coisa Ruim)
Doce Tortura (Dalkomhan insaeng / A Bittersweet Life)
North Country - Terra Fria (North Country)

2006/03/09
Bandidas (Bandidas)
Cidade Assombrada 2: A Inocência (Ghost in the Shell 2: Innocence)
Espelho Mágico (Espelho Mágico)
Frágeis (Fragile)
O Mundo (Shijie)
Terapia do Amor (Prime)
Todos ao Monte (Yours, Mine and Ours)
Underworld: Evolução (Underworld: Evolution)

2006/03/16
A Condessa Russa (The White Countess)
A Pantera Cor de Rosa (The Pink Panther)
Cavaleiros dos Céus (Les Chevaliers du Ciel)
Identidade Kubrick (Colour Me Kubrick)
Tsotsi (Tsotsi)
Uma História de Violência (A History Of Violence)

2006/03/23
3...Extremos (Saam gaang yi)
Casanova (Casanova)
Nanny Mcphee - A Ama Mágica (Nanny Mcphee)
O Segredo (La Monja)
V de Vingança (V for Vendetta)

2006/03/30
A Idade do Gelo 2: Descongelados (Ice Age: The Meltdown)
Apenas Amigos (Just Friends)
Breakfast On Pluto (Breakfast On Pluto)
Ninguém Sabe (Nobody Knows / Dare mo shiranai)
O Tigre e a Neve (La Tigre e la Neve)
Vanitas (Vanitas)

2006/04/06
Antárctida - Da Sobrevivência ao Resgate (Eight Below)
Como Despachar um Encalhado (Failure to Launch)
Instinto Fatal 2 (Basic Instinct 2)
Ultravioleta (Ultraviolet)

2006/04/12
Selvagem (The Wild)

2006/04/13
Date Movie (Date Movie)
Golpe a Frio (The Ice Harvest)
Hostel (Hostel)
Infiltrado (Inside Man)

2006/04/20
Firewall (Firewall)
Lisboetas (Lisboetas)
Scary Movie 4 - Que Susto de Filme! (Scary Movie 4)
Uma Família dos Diabos (Keeping Mum)
Vem Comigo (Lie With Me)

2006/04/27
A Criança (L'Enfant)
Medo de Morte (Running Scared)
O Matador (The Matador)
O Veneno da Madrugada (O Veneno da Madrugada)
Os Produtores (The Producers)

2006/05/04
Drawing Restraint 9 (Drawing Restraint 9)
Maria Madalena (Mary)
Missão Impossível III (Mission: Impossible III)
Movimentos Perpétuos - Homenagem a Carlos Paredes (Movimentos Perpétuos - Homenagem a Carlos Paredes)
O Novo Mundo (The New World)
Os Aristocratas (The Aristocrats)
Pele (Pele)
Shooting Dogs - Testemunhos de Sangue (Shooting Dogs)

2006/05/11
Freedomland - A Cor do Crime (Freedomland)
Inocência (Innocence)
Lassie (Lassie)
O Matulão da Vovó (Grandma's Boy)
O Último Destino 3 (Final Destination 3)
Terror nas Montanhas (The Hills Have Eyes)

2006/05/18
A Comédia do Poder (L' Ivresse du pouvoir)
No Limiar da Verdade (Half Light)
O Código Da Vinci (The Da Vinci Code)
O Maior Penalty do Mundo (El Penalti más largo del mundo)
Wassup Rockers - Desafios da Rua (Wassup Rockers)

2006/05/25
A Pista (La Pist / The Trail)
Indian - O Grande Desafio (The World's Fastest Indian)
Modigliani (Modigliani)
Natureza Morta (Natureza Morta)
O Tempo Que Resta (Le Temps qui reste)
X-Men - O Confronto Final (X-Men: The Last Stand)

2006/06/01
Crianças Invisíveis (All the Invisible Children)
Ela é... Ele (She's the Man)
Escolha Mortal (The Proposition)
Euro 2004 - Amor e Futebol (The Other Half)
Falhados... Por um Fio (The Benchwarmers)
O Rafeiro (The Shaggy Dog)
Stoned, Anos Loucos (Stoned)

2006/06/06
O Génio do Mal (The Omen)

2006/06/08
Astérix e os Vikings (Astérix et les Vikings)
Hard Candy (Hard Candy)
Inconcientes (Inconscientes)
Murderball - Espírito de Combate (Murderball)
Os Amigos de Dean (The Chumscrubber)
The Devil and Daniel Johnston - Loucuras de Um Génio (The Devil and Daniel Johnston)

2006/06/15
A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale)
Com a Casa às Costas (RV)
Estranhos Em Casa (Winter Passing)
Ritmo e Sedução (Take The Lead)
Um Toque de Canela (A Touch Of Spice)

2006/06/22
A Casa da Loucura (Asylum)
Klimt (Klimt)
O Rei (The King)
Para Sempre (Per Sempre)
Samaritana (Samaria)
Sem Destino (Sorstalanság / Fateless)
Tideland - O Mundo ao Contrário (Tideland)
Velocidade Furiosa - Ligação Tóquio (The Fast and the Furious: Tokyo Drift)

2006/06/29
A História de Duas Irmãs (Janghwa, Hongryeon / A Tale of Two Sisters)
A Vida Secreta das Palavras (La Vida secreta de las palabras)
Carros (Cars)
Chamada de um Estranho (When a Stranger Calls)

2006/07/06
As Filhas do Botânico (The Chinese Bothanist's Daughters)
Eu, Tu e Todos os que Conhecemos (Me and You and Everyone We Know)
O Diabo a Quatro (O Diabo a Quatro)
Poseidon (Poseidon)
Separados de Fresco (The Break-Up)

2006/07/13
A Honra do Dragão (Tom yum goong)
Assombrados - Uma História Americana (An American Haunting)
Diários da Bósnia (Diários da Bósnia)
Edison (Edison)
Finais Felizes (Happy Endings)
Pular a Cerca (Over the Hedge)
Tara Road - Vidas Trocadas (Tara Road)
Tristão e Isolda (Tristan + Isolde)

2006/07/20
O Fio da Vida (Strings)
Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto (Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest)
Profissão: Repórter (Professione: reporter)
Toda a Verdade Sobre o Amor (The Truth About Love)

2006/07/27
A Casa da Lagoa (The Lake House)
Brisa de Mudança (The Wind That Shakes the Barley)
Candy (Candy)
Há Dias de Azar (Lucky Number Slevin)
Que Sorte a Minha! (Just My Luck)
Stay Alive (Stay Alive)
Um Detective em Apertos (L´Enquête Corse)

2006/08/03
Capuchinho Vermelho - A Verdadeira História (Hoodwinked)
Miami Vice (Miami Vice)
Romance & Cigarros (Romance & Cigarettes)

2006/08/10
A Poeira do Tempo (Ask the Dust)
Desastre! (Disaster!)
Os Amantes Regulares (Les Amants Réguliers)
Super-Homem: O Regresso (Superman Returns)

2006/08/17
Angel A (Angel-A)
Genesis (Genesis)
Imagina Só (Imagine Me & You)
Mafioso Quanto Baste... (Find Me Guilty)
O Rapaz Formiga (The Ant Bully)
Revolta-te! (Stick It)
Sonhar com Xangai (Shanghai Dreams / Qing hong)

2006/08/24
Garfield 2 (Garfield: A Tail of Two Kitties)
Loucos e Apaixonados (Mozart and the Whale)
O Mito (San wa /The Myth)
Um Homem na Cidade (Man About Town)
Voo 93 (United 93)

2006/08/31
A Caminho de Guantánamo (The Road to Guantanamo)
A Casa Fantasma (Monster House)
Eu, Tu e o Emplastro (You, Me and Dupree)
O Paraíso, Agora! (Paradise Now)
O Sentinela (The Sentinel)
Terkel em Sarilhos (Terkel i Knibe / Terkel In Trouble)

2006/09/07
Animal (Animal)
Diário de um Mundo Novo (Diário de Um Novo Mundo)
Minorca (Little Man)
Voltar (Volver)

2006/09/14
98 Octanas (98 Octanas)
A Minha Super Ex (My Super Ex-Girlfriend)
Alguns Dias em Setembro (Quelques jours en septembre)
Havana - Cidade Perdida (The Lost City)
Preciosa Iguaria (Dumplings / Gaau ji)
Quem Está Morto Sempre Aparece (The Big White)
Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth)
Água (Water)

2006/09/21
As Corridas Loucas de Ricky Bobby (Talladega Nights: The Ballad of Ricky Bobby)
Desconhecido (Undiscovered)
O Coleccionador de Olhos (See no Evil)
World Trade Center (World Trade Center)

2006/09/28
A Senhora da Água (Lady in the Water)
Armadilha em Alto Mar (Adrift)
Nunca Tantos Fizeram Tão Pouco (Clerks II)
Ondas Invisíveis (Invisible Waves)
Serpentes a Bordo (Snakes on a Plane)

2006/10/05
A Dália Negra (The Black Dahlia)
Balbúrdia na Quinta (Barnyard)
Click (Click)
Transe (Transe)

2006/10/12
As Duas Vidas da Serpente (Les Deux vies du serpent)
End Game - Crime Perfeito (End Game)
Filme da Treta (Filme da Treta)
Mas Que Culpa Temos Nós (Ma che colpa abbiamo noi)
O Guardião (The Guardian)
Rapace (Rapace)
Uma Familia à Beira de um Ataque de Nervos (Little Miss Sunshine)

2006/10/19
Alex Rider: Operação Stormbreaker (Stormbreaker)
Aos Doze e Tantos (Twelve and Holding)
Crank - Veneno no Sangue (Crank)
Dondoca à Força (Palais royal!)
Marie Antoinette (Marie Antoinette)

2006/10/26
A Prairie Home Companion - Bastidores da Rádio (A Praire Home Companion)
O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada)
O Último Caçador (The Last Trapper)
Os Filhos do Homem (Children of Men)
Quanto Me Amas? (Combien tu m'aimes?)
Vinicius (Vinicius)

2006/11/01
Boog & Elliot Vão À Caça (Open Season)
D.O.A. - Guerreiras Mortais (DOA: Dead or Alive)

2006/11/02
Em Paris (Dans Paris)
Manual de Amor (Manuale d'amore)
O Ilusionista (The Illusionist)
Paris Je T'Aime (Paris Je T'Aime)

2006/11/16
16 Blocks (16 Blocks)
A Ciência dos Sonhos (La Science des rêves)
Brick (Brick)
Corrigindo Beethoven (Copying Beethoven)
Estranhos (Unknown)
Massacre no Texas - O Início (The Texas Chainsaw Massacre: The Beginning)
O Lugar Ideal (Fauteuils D'Orchestre)
Um Ano Especial (A Good Year)
Viúva Rica, Solteira Não Fica (Viúva Rica, Solteira Não Fica)

2006/11/23
007 - Casino Royale (Casino Royale)
Filha da Guerra (Grbavica)
Infame (Infamous)
Juventude em Marcha (Juventude em Marcha)
Obrigado por Fumar (Thank You for Smoking)
Step Up (Step Up)

2006/11/30
A Rainha (The Queen)
Borat: Aprender Cultura da América para fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão (Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan)
Por Água Abaixo (Flushed Away)

2006/12/07
Alex (Alex)
Happy Feet (Happy Feet)
O Nascimento de Cristo (The Nativity Story)
Saw 3 - O Legado (Saw III)

2006/12/14
Amor Não Tira Férias (The Holiday)
Artur e os Minimeus (Arthur and the Invisibles)
Eragon (Eragon)

2006/12/21
20,13 - Purgatório (20,13 - Purgatório)
Amor Suspeito (La Moustache)
Déjà Vu (Déjà Vu)
Um Vizinho a Apagar (Deck The Halls)

2006/12/28
Agente 117 (OSS 117: Le Caire nid d'espions)
As Tartarugas Também Voam (Turtles Can Fly / Lakposhtha hâm parvaz mikonand)
Babel (Babel)
Escola para Totós (School for Scoundrels)
Funcionário do Mês (Employee Of The Month)
O Pacto (The Covenant)
O Terceiro Passo (The Prestige)

Nota: esta lista foi retirada do site 7ª Arte o cinema em Portugal. Para quaqluer dúvida dirigir-se ai site, em
http://www.7arte.net/cgi-bin/f_listar_por_ano.pl
Para saber mais sobre qualquer filme, basta clicar no nome do mesmo e abre-se uma janela com amplas informações.

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

SUPERMAN, I, II e III

“SUPERMAN - O FILME”

Um ponto no espaço avança em direcção aos espectadores. Nas ruas de Nova Iorque os transeuntes param, olham o céu, e exclamam: “lt's a birds... it's a plane... it's Superman!” (É um pássaro... um avião... é Super-Homem!).
É também Christopher Reeves, envergando o lendário “colant” azul e vermelho, que, por meio das mais sofisticadas trucagens (desde voar preso por arames invisíveis, até ser substituído por um pequeno boneco manejado à distância), se passeia, a loucas velocidades, por sobre as cabeças dos nova-iorquinos estupefactos.
Com os dois braços dirigidos para a frente, rompendo o ar, Superman aí vai em direcção ao crime. Os americanos sabem-no e respiram tranquilamente.
Alguém vela por eles, Christopher Reeves flecte um braço para a direita, mete a mudança, muda de rumo. Estamos no domínio do fantástico. É Superman, o herói, a estrela de cinema. É “Superman - The Movie” (Superman — o filme). O mais caro filme de toda a história do cinema. Pelo menos durante alguns meses, o “record” de 35 milhões de dólares garante esse máximo, que em números portugueses (e pese embora a desva­lorização do escudo), dá qualquer coisa como perto de dois milhões de contos. Calculam o que seja?
Marlon Brando, para aparecer durante os primeiros dez minutos de projecção, pediu, e cobrou, três milhões e setecen­tos mil dólares. Uma aparição a peso de ouro, bem se pode dizer. Bem se pode também saborear o requinte da sua inter­pretação, o branco cabelo platinado, o sumptuoso “décor” de cristal, onde decorre o conselho dos anciões, de que faz parte Jor-EI, cientista, pai de Superman. São dez minutos de antolo­gia, no domínio do fantástico e do maravilhoso. Depois, Krypton, o planeta donde é originário Superman, explode no espaço, e com ele Marlon Brando. Mas o fascínio de “Superman - o fil­me”, esse permanecerá.
Expulso de Krypton no interior de um cometa, Superman irá aterrar numa planície americana. A criança que sairá de dentro do meteorito é recolhida por um casal de camponeses, que, segundos depois, perceberá que acaba de albergar um ser com poderes extraordinários, vindos de outro planeta. 2Encontro imediato”, portanto, “de terceiro grau”, o que John Williams, o autor da partitura musical de ambos os filmes, não deixará aqui de subtilmente sublinhar, insinuando discretamente as no­tas que tornam célebre a “nave”. E a criança cresce, levantando carros com um dedo, correndo ao lado de comboios, multiplicando os seus poderes, mas sempre secretamente, a sós. Na vida diária, o seu nome será Clark Kent, estudante pouco dado a desportos, depois jornalista de reduzida coragem, muita timidez, miopia, pouca inteligência. Dir-se-ia o cidadão médio, aquele que melhor se irá identificar com a figura e com a sua duplicidade.
O americano - e não só! - aprisionado na teia de um emprego de funcionário público, tolhido pelas ameaças externas, temeroso e frustrado, descobre, no outro lado de Klark Kent, em Superman, o sonho utópico da sua vida, a virilidade ignorada, a paixão esquecida, as grandes causas desprotegidas.
Desconhecido no cinema, Cristopher Reeves ganhou este papel em disputa com centenas de outros candidatos. A estatura atlética, a configuração do rosto, sobretudo o queixo quadran­gular, e o à-vontade com que se movimentara frente à câmara obrigaram a escolha. Para interpretar o papel de Clark Kent-Superman, Christopher Reeves ganharia também qualquer coisa como duzentos e cinquenta mil dólares. E um contrato obrigando-o a continuar com a figura, certamente com verbas bem mais elevadas.
Criado em 1938 por uma dupla de americanos, Jerry Siegel e Joe Shuster, “Superman” é a mais antiga criação de super-homem em banda desenhada, nos Estados Unidos. Proveniente de um planeta que desaparece entretanto, Superman é um ser dotado de uma força prodigiosa, podendo voar, e possuindo ainda uma quantidade de outros poderes nada desprezíveis, como por exemplo uma “super visão de raios X”, a emissão de raios caloríficos que vão até à fusão da rocha ou do metal, podendo não só viajar no espaço, mas também no tempo. Todas estas invejáveis características ele as coloca ao serviço da Verdade, da Justiça e da “american way of life”.
Tendo surgido pela primeira vez numa época em que o mundo se encontrava ameaçado pela agressividade bélica nazi, Superman iniciou desde logo a sua campanha patriótica em favor das razões dos “Aliados”, logo, da América. Num momento de ira, perante os “comics books” que diariamente surgiam em toda a imprensa americana e europeia, Goebbels teria mesmo chegado a invectivar o herói em plena reunião do Reichstag: “Esse Superman é judeu”! O que dá bem ideia do poder de penetração desta banda desenhada no meio dos “mass media”.
Perseguidor de criminosos de delito comum, protector de pobres e desprotegidos. Superman, como todos os super-heróis das histórias em quadradinhos, encontra normalmente pela frente supervilões de poderes igualmente desmedidos, como é o caso de Lex Luthor, o imperador do crime, que vive no interior da terra, rodeado de fiéis servidores e belas mulheres fatais. Ele pretende desviar para San Andreas, na costa da Califórnia, alguns engenhos nucleares, que, ao explodirem, demonstrarão o seu poder e prostrarão diante de si os governos de todo o mundo, Gene Hackman, Ned Beatty e Valerie Perrine compõem a trindade do crime, que mais uma vez não compensa, escusado será dizer. Apesar de Superman conhecer igualmente o seu calcanhar de Aquiles e, por via disso, as suas revezes. Na verdade, Superman é vulnerável aos raios de uma substância vinda igualmente do planeta Crypton, a cryptonite, que Lex Luthor consegue arranjar para usar no momento decisivo.
Em banda desenhada, a figura de Superman não é, todavia, das nossas personagens favoritas. Se bem que seja de referir a originalidade e invenção dos argumentos, o recorte da figura, por vezes mesmo a qualidade plástica do desenho, o seu movi­mento e força expressiva, por outro lado não é menos evidente a posição moral e social do herói, denunciando uma mentalidade conservadora, puritana e de um maniqueísmo extremo. No filme de Richard Donner, com argumento escrito e reescrito por vá­rias vezes, primeiramente por Mário Puzo (“O Padrinho”), depois por David Newman, Leslie Newman e Robert Benton, Superman é olhado com uma ironia e um sentido do espectáculo e da diversão que nos reconciliam com a figura. Tudo é visto pelo prisma da fantasia, e as referências obrigatórias, como a redac­ção do “Daily Planet”, em Metropolis, ou o lema de Superman (“pela Verdade, pela Justiça, à maneira americana”) não deixam de ir suficientemente sublinhadas para o humor se encarregar de as situar no seu devido contexto.
“Superman - o filme” - é um pouco da infância de todos nós que regressa, pela magia do cinema que torna os sonhos substância, pela competência e talento de uma equipa técnica que faz da substância sonho e fantasia. No campo em que obviamente se situa “Superman - o filme” - pode bem consi­derasse uma obra-prima. Do cinema espectáculo, do cinema diversão. De um espectáculo vestido com as cores sedutoras de uma certa mitologia romântica, desenvolvendo-se num clima de bonomia e optimismo contagiantes. O cinema redescobre a sua inocência. Ou somos nós que ainda conseguimos ver nele reflec­tida a nossa? “Superman - o filme” - sabe bem. Apetece. Operação de marketing bem planeada?
Sim, mas também o talento conjugado de muitos artífices e a magia de uma aventura como há muito se não via. Este “Superman” é o Tom Mix dos anos 70, cortejando por entre galá­xias Lois Lane, a jornalista. É o outro lado de “Mary Poppins”, a continuação de “Peter Pan” (que, aliás, o filme indirectamente referencia), um rival do “Homem Aranha”, a quem carinhosamente destrói com uma piada de antologia. Deixe, pois, os preconceitos e a falsa erudição à porta do cinema e venha divertir-se com “Superman - o filme”. Como as crianças. (D. N.) 1979

SUPERMAN - O FILME
Título original: Superman - The Movie
Realiza­ção: Richard Donner (EUA, Inglaterra, 1978; Argumento: Mário Puzzo, David Newman, Leslie Newman e Robert Benton; Con­sultor criativo: Tom Mankiewicz; Fotografia (Technicolor, Pana-vision): Geoffrey Unsworth; Música: John Willams; Montagem: Stuart Baird; Produtores: llya Salkind e Pi erre Spengler; Intér­pretes: Marlon Brando (Jor-EI), Gene Hackman (Lex Luthor), Christopher Reeves (Clark Kent-Superman), Harry Andrews (Ansião), Ned Beatty (Otis), Jackie Cooper (Perry White), Sarah Douglas (Ursa), Gienn Ford (Jonathan Kent), Trevor Howard (Ansião), Margot Kidder (Lois Lane), Marc McCIure (Jimmy Olsen), Jack 0'Halloran (Non); Valerie Perrine (Eve), Maria Schell (Vond-Ah), Terence Etamp (General Zod), Susannah York (Lara). Distribuição: Mundial Filmes; Classificação: Não aconselhável a menores de 13 anos; Estreia em Portugal: cinemas Império (Lisboa), Trindade (Porto) e Avenida (Coimbra); 23 de Março de 1979.
SUPERMAN, A AVENTURA CONTINUA!”

A prática das continuações é hoje corrente entre filmes que despertaram grande êxito público na sua primeira apresentação. Mas nem sempre as continuações conseguem assegurar uma mesma qualidade e interesse, em relação às obras originais. De qualquer forma, vai sendo também comum aparecerem por vezes variantes que ultrapassam em valor os filmes iniciais. Basta recordar “Padrinho II”, “O Exorcista II” ou “O Império Contra Ataca” prolongamento de ”A Guerra das Estrelas”. Em qualquer destes casos, o segundo filme é, pelo menos, tão bom quanto o primeiro o era, quando não lhe é decididamente superior.
“Superman II” é mais uma obra que prolonga, com felicidade, uma aventura nascida há dois anos. Na verdade, em 1978, Alexander Salkind lançou “Superman”, numa realização de Richard Donner, película que transpunha para o cinema, com grandes meios técnicos e humanos, raro virtuosismo, algum humor e uma irresistível auréola mítica, a figura lendária de um dos mais célebres heróis da banda desenhada norte-americana. Em 1980, o mesmo Salkind prossegue a aventura, entregando a realização, desta feita, a Richard Lester, um cineasta particularmente dotado para este género de filmes, que aqui não deixa os créditos por mãos alheias, mantendo o espírito e acentuando algumas características desta versão moderna de “Superman”.
Primeiramente haverá que saudar o tom de filme em episódios (o antigo “serial”) que estas obras ressuscitam. Quando no final da projecção, as legendas derradeiras anunciam já que “Superman III” vem a caminho, a plateia reage da mesma forma que há algumas décadas outras plateias reagiriam às imagens derradeiras de uma “jornada” que prenunciava outras. Essa euforia da aventura interminável, que renasce a cada nova peripécia, está bem captada pelo fascínio das imagens de Lester, como o fora igualmente pelas de Doner.
Mas, enquanto Richard Donner realçara o mito, das origens até à idade adulta, documentando os primeiros passos e os primeiros perigos, Richard Lester apanha o mito já em andamento e obriga-se a um outro tipo de percurso. Sabido como é que “Superman” não encontra adversários à altura entre os humanos, há que encontrar inimigos de forças plausivelmente idênticas.
É o que acontece neste “Superman II”, para o qual Mário Puzo, o argumentista de serviço, vai desencantar três vilões de origem extraterrestre e de poderes semelhantes aos de “Superman”, dado que têm de comum uma mesma fonte: o planeta Kripton. Eles retomam, aliás, as imagens iniciais de “Superman I”, quando o conselho dos anciães de Kripton condena ao exílio, no espaço, o traidor general Zod e dois acólitos, Ursa e Non. Pois são estas três personagens demoníacas que regressam, agora libertados mercê de uma explosão nuclear no espaço. Eles regressam para se vingar de “Superman”, o filho de Jor-EI, e simultaneamente para se assenhorearem da Terra. Depois de um prólogo, durante o qual Superman salva Paris da destruição, expulsando da Torre Eiffel uma bomba atómica ali colocada por um grupo de terroristas, o filme lança-se numa narrativa sincopada, jogando com uma montagem de acções paralelas que tendem a uma convergência final. Por um lado, é Superman, que vive um idílio com Lois Lane e chega mesmo a abdicar dos seus poderes para ser somente um homem, enquanto o general Zod e companheiros se aproximam da Terra e Lex Luthor foge da prisão, preparando uma nova tramóia. Finalmente, nos céus de Nova Iorque, irá acontecer o grande confronto: Superman contra Zod-Non-Ursa-Lex Luthor. A emoção atinge o rubro.
Reproduzindo com rara felicidade o clima da banda desenhada donde parte, Richard Lester usa de um humor subtil extremamente divertido, jogando com inteligência com alguns dos símbolos e muitas das situações míticas. Pode, no entanto, sublinhar-se a carga ideológica que um tal projecto comporta. Numa época em que a América se sente complexada por sucessivas derrotas (Vietname, Irão, etc), este episódio de “Superman” parece identificar-se um pouco com o espírito Reagan. A América, depois de ajoelhar, será vingada pela força do seu herói, da mesma forma que Superman, sob as vestes de Clark Kent é derrotado por um truão de bar, e regressa depois para um ajuste de contas derradeiro. O mesmo Superman que repõe a bandeira dos EUA, no cimo da White House, recolocando no lugar próprio a dignidade ameaçada.
Mas, se é possível falar desta carga ideológica subjacente, não menos é de referir o tom burlesco de muitas situações e a ironia que perpassa por toda a obra, gozando abertamente cataratas do Niágara é uma delas).
Servida por excelentes efeitos especiais, magníficos actores (entre os quais será justo fazer sobressair Christopher Reeves, que encarna com dupla justeza a figura de Superman-Clark-Kent), este “Superman II” está destinado a êxito idêntico ao do primeiro episódio. Esperemos que “Superman III” mantenha o nível e a aventura continue. (D. N.) — 1981

SUPERMAN, A AVENTURA CONTINUA
Título original: Superman II
Realização: Richard Lester (EUA, 1980); Intérpretes: Christopher Reeves, Gene Hackman, Ned Beatty, Jackie Cooper, Valerie Perrine, Margot Kidder, Sarah Douglas, Jack 0'Halloran, Terence Stamp, Susannah York, etc; Distribuição: Mundial Filmes; Classificação: Não aconselhável a menores de 13 anos; Estreia: Cinemas Império e Vox (2 de Abril de 1981).


Quarta-feira, Agosto 02, 2006

OS PIRATAS DAS CARAIBAS
– A MALDIÇÃO DO PÉROLA NEGRA
Os piratas, que fazem do oceano a sua casa, apareceram na História logo que houve nos mares algo para pilhar. Quando o comércio se intensifica no Mediterrâneo, com fenícios, gregos e romanos a trocarem produtos valiosos, logo surge a pirataria, que se intensificará sobretudo nos séculos XVII e XVIII, depois das potências europeias começarem a explorar as suas colónias.
O trânsito de especiarias, metais preciosos e demais tesouros, inspirou o aparecimento de barcos saqueadores, comandados por renegados das grandes potências, exilados por motivos políticos ou religiosos, ou simples “outsiders” sem eira nem beira, presos de delito comum, enviados para as colónias para cumprir penas a que conseguem furtar-se. Surgem assim dezenas e dezenas de personagens que capitaneiam equipagens de centenas de foragidos. Com base em relatos míticos e outros mais realistas, as lendas começam a circular e a criar um vasto manancial de literatura de viagens marítimas que tudo contêm menos material apologético de virtudes e honradez. Apenas aqui e ali aparece a figura de um corsário, flibusteiro, pirata ou bucaneiro cuja moral justiceira pode ser enaltecida. No mais, o que impera é o roubo e a violação. Um imaginário de sangrentas aventuras.
Mas as mais recentes pesquisas históricas dizem que nem tudo foi mau por essas bandas, fala-se agora em sociedades organizadas de forma democrática no interior dos barcos, descobrem-se regulamentos internos, o universo machista do pirata cede perante o aparecimento de várias figuras femininas que também foram piratas de saias (ao lado dos celebrados capitães Drake, Kidd, Jean Lafitte, John Avery, Blackbeard ou Henry Morgan temos agora Cheng I Sao / Ching Shih nos inícios de século XIX, Mary Read e Ann Bonny no século XVIII, Grace O’Malley ou Granuaile, a “Rainhas dos Piratas irlandeses”, no século XVII, ou a longínqua pirata escandinava Alwilda, do V século).

Infelizmente (ou não), se há filmes baseados em episódios da História que deliberadamente pouco conservam da História de que partem, esses são os filmes de piratas. O espírito da pirataria apodera-se por inteiro de argumentistas, realizadores e actores quando se trata de conceberem histórias, realizá-las e interpretá-las. A “liberdade poética” impera e a pilhagem funciona. Não deve haver, no entanto, ao longo de toda a História do Cinema, muitos outros filmes de ambiente histórico tão sedutor como os filmes de piratas.
Os piratas existiram obviamente, e muitos até tiveram nomes próprios tal como são nomeados nos filmes. Vários participaram em acontecimentos que lhes são atribuídos, alguns tiveram uma existência com muitos pontos de contacto com aquela que o cinema mostra. Mas os filmes efabulam de tal forma sobre essas personagens e os episódios por si vividos que rara é a obra cinematográfica onde se possa dizer que algo corresponda rigorosamente à verdade histórica (também esta já de si tão resvaladiça!). No entanto, os filmes de piratas existem quase desde que existe cinema, e sempre com grande sucesso público, o que engloba agradar a jovens e a menos jovens, homens e mulheres, pobres e ricos, gregos e troianos.
Qual a razão deste prazer irrecusável ao ver um “bom filme de piratas”? Pois parece que todos temos um pouco de pirata dentro de nós, que se revela (e identifica) nessas aventuras rocambolescas quase sempre passadas nos exóticos mares do Sul, onde o instinto de revolta e de não integração numa sociedade organizada, regrada e normativa é posto à prova. Por isso, quanto mais efabulador for o argumento e mais libertária a realização, quanto mais “composta” e rebuscada for a interpretação dos actores mais nos identificamos com essas figuras lendárias que foram pólos de destruição, de anarquia, de roubo, de pilhagem.
Os piratas são seres associais que viveram – e vivem ainda, basta olhar para o campo da informática, esses novos oceanos da pilhagem contemporânea - na base de um comportamento primitivo, libertador e subversivo quanto a regras, convenções, preconceitos. Os tesouros são para se roubar, as mulheres bonitas para se usufruírem logo ali e as outras para se violarem também ali mesmo, os alimentos para se tragarem à mão, os poderosos para se amesquinharem, os ricos para se empobrecerem, as cidades para se assaltarem, os portos para se bombardearem, bem assim como os castelos dos governadores, com quem se tem quase sempre um duelo decisivo na ponta final do filme. Os barcos com bandeiras nacionais são para se abordarem, em nome de uma bandeira preta sem Pátria, com uma caveira encimando espadas cruzadas. Nos filmes de piratas estamos no domínio do interdito que se nomeia para prazer de plateias de “associais” integrados que assim se vingam de vidas monótonas e insípidas. Cada abordagem do “pirata dos nossos sonhos” é uma abordagem nossa que se concretiza, sem o perigo de se ir parar aos calabouços das redondezas.
O pirata é romântico e sugestivo mesmo quando tem os dentes podres e bem pretos, o cabelo eriçado, uma perna de pau e um olho de vidro, a vestimenta esfrangalhada e um ideário aparentemente sem nobreza. Não se percebe bem porquê, mas o pirata é dos únicos anti-heróis que nem sempre rouba aos ricos para dar aos pobres, mas que gostamos de ver sobreviver no plano final, quer fique para si com o tesouro, quer este esvoace, quer seja distribuído pelos mais necessitados. Em todos os casos, o pirata efectua no íntimo de cada espectador o seu trabalho de catarse, e mesmo quando morre enforcado num patíbulo crepuscular, as plateias sabem que há alguma coisa a comemorar: enquanto viveu, desforrou-se, e na hora da morte tem sempre alguma donzela a carpir mágoas. Ou não fossem quase todos os piratas do cinema carismáticos actores, ainda por cima em momentos esplendorosos das suas carreiras (por que será que as personagens de piratas dão quase sempre excelentes trabalhos de composição aos seus actores?).
Já reparam na espantosa lista de actores que criaram figuras inesquecíveis de piratas, flibusteiros e quejandos? Então vejam só alguns: Douglas Fairbanks, Errol Flynn, Wallace Berry, Clark Gable, Laurence Olivier, Fredric March, Akim Tamiroff, Walter Brennan, Anthony Quinn, Charles Laughton, Robert Newton, Burt Lancaster, Christopher Lee, John Payne, Stewart Granger, George Sanders, Yul Brynner, Charlton Heston, James Coburn, Peter Ustinov, Robert Shaw, Michael Caine, Kevin Kline, Walter Matthau, Oliver Reed, Christian Bale, Spencer Tracy, Mickey Rooney, Robert Ryan, Terence Stamp, Robin Williams, Dustin Hoffman, Bob Hoskins, Geena Davis, Matthew Modine, Frank Langella, ou Johnny Deep … Que lista! Só falta Humphrey Bogart para estar completa e perfeita, ainda que Bogart tenha sido pirata em muitas outras obras de uma pirataria diferente.
Creio que poderemos, sem muito receio de errar, considerar o pirata uma personagem que, prolongando-se desde o imaginário infantil (o capitão Gancho de “Peter Pan” é um belíssimo exemplo!), permanece no subconsciente colectivo das plateias de todo o mundo (depois de o ter estado também no subconsciente colectivo dos leitores de Emílio Salgari ou de Rafael Sabatini). É um herói maculado, um apátrida, um associal que consegue manter uma auréola de romantismo invulgar, perante as características que o definem. E aí o cinema, “fábrica de sonhos”, tem o seu papel importante – cada pirata turbulento e sanguinário é desenhado de forma ora heróica ora caricatural, de maneira a tornar-se um ser quase irreal, uma criação sem correspondente no real. O público pode identificar-se sem problemas de consciência: os piratas encarnados por Charles Laughton, Akim Tamiroff, Robert Newton, Peter Ustinov, Anthony Quinn, Christopher Lee, Robert Shaw ou Walter Matthau não existem senão como “criações” cinematográficas. Muitos outros, porém, surgem como heróis de corajosas causas. À imagem e semelhança dos seus actores: Douglas Fairbanks, Errol Flynn, Clark Gable, Spencer Tracy, Burt Lancaster, Stewart Granger ou Kevin Kline.

Os filmes de e sobre piratas surgem periodicamente nas salas de cinema de todo o mundo. No período do cinema mudo, Douglas Fairbanks celebrizou-se no cinema de aventuras, particularmente como “O Pirata Negro” (1922), de Albert Parker. Nos anos 30, Errol Flynn foi o pirata perfeito (se é que nestas coisas de pirataria se pode ser perfeito!) em obras como “Capitão Blood” (1935) ou “O Gavião dos Mares” (1940), ambos de Michael Curtiz. Nas décadas de 30, 40 e 50, os piratas multiplicaram-se em filmes inesquecíveis: Wallace Berry ergueu a primeira grande adaptação de “A Ilha do Tesouro” (1935), de Victor Fleming; Tirone Power ressuscitou “O Pirata Negro” (1942), de Henry King; John Payne foi protagonista de “Wake of the Red Witch” (1948), de Edward Ludwig e “Raiders of the Seven Seas” (1953), de Sidney Salkow; o deslumbrante Charles Laughton passou pela “Revolta na Bounty” (1948), de Frank Lloyd, foi o “Captain Kidd” (1945), de Rowlkand V. Lew; Stewart Granger atravessou e marcou essa obra prima de Fritz Lang, “Moonfleet” (1955); Clark Gable esteve “Nos Mares da China” (1935), de Tay Garnet; Burt Lancaster foi o fabuloso “The Crisom Pirate” (1952), de Robert Siodmak; Robert Newton emprestou o seu humor a “Barba Negra, o Pirata” (1952), de Raoul Walsh; até Bob Hope foi pirata em “A Princesa e o Pirata” (1944), de David Butler...
Mas os piratas nunca abandonaram os écrans, e em 1965, Alexander Mackendrick dá-nos um espantoso “Tempestade na Jamaica” e vinte anos depois, Roman Polanski não foge ao tema em “Pirates”, com um turbulento Walter Matthau, na composição do admirável Capitão Thomas Bartholomew Red. Antes, em 1976, Robert Shaw também se deixara sugestionar pela composição da figura do pirata Ned Lynch, em “Swashbuckler”, de James Goldstone. Muito mais próximo de nós, “Cutthroat Island” (1995), de Renny Harlin, tinha como protagonistas Geena Davis e Matthew Modine.
Até surgir, em 2003, “Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl”, de Gore Verbinski, com Johnny Deep na figura de Jack Sparrow, “o pior pirata de que já ouvi falar!”, afirma-lhe na cara alguém, que recebe uma desconcertante resposta: “Ah, isso quer dizer que já ouviu falar de mim!”. Historicamente, nada a dizer sobre este filme essencialmente de aventuras e bom humor, numa linha de auto-paródia a um género com cartas de nobreza, o que se integra excelentemente no tipo de obras hoje em dia aguardadas com expectativas pelas plateias de todo o mundo.
Jack Sparrow é um pirata algo efeminado, galanteador, exímio na arte de furtar-se a confrontos, até ao momento em que estes são indispensáveis e onde demonstra então uma habilidade e perícia totais. Jack Sparrow é um esgrimista valoroso, um troca trintas ardiloso, um astuto estratega... Disse Johnny Deep, numa entrevista, que, para criar o herói, se inspirou em Keith Richards (o guitarrista dos Rolling Stones) e na Doninha Fedorenta dos desenhos animados da Warner, que não se cansa de perseguir gatas.
Inspirado numa das grandes atracções dos parques temáticos da Disney, “Piratas das Caraíbas” recupera o clima de uma viagem fantástica pelo interior das cavernas que nos recordam o universo dos piratas em pleno século XVII, com quadros animados e hologramas de fantasmas que ameaçam os visitantes à sua passagem. O “frisson” manso que nos faz vibrar e sonhar.
A história fala-nos de Jack Sparrow (Depp), flibusteiro que recupera de uma longa permanência num ilha isolada, depois do pérfido capitão Barbossa lhe ter roubado o barco, “Black Pearl”, atacado Port Royal, nas Caraíbas, e raptado a bela filha do governador, Elizabeth Swann (Knightley). Entretanto, Will Turner (Bloom), um jovem ferreiro, amigo de infância da filha do governador, que se apaixonara secretamente por Elizabeth, decide resgatá-la e, para isso, solicita a ajuda de Sparrow, que se encontra preso. O problema é que eles não sabem que o “Pérola Negra” está agora amaldiçoado e que, sob a luz do luar, Barbossa e os seus tripulantes se transformam em zombies ameaçadores... Além disso, há ainda a presença de um tesouro de indescritível riqueza, que só cairá nas mãos de quem possuir todas as moedas mágicas que o abrem.
Os efeitos visuais da produção são bastante bons. Os mortos vivos movem-se com uma fluidez e credibilidade invulgares, as transformações funcionam como interessante recurso dramático e humorístico, como na sequência da batalha naval, durante a qual os piratas atravessam raios de luar que os iluminam durante o duelo, oscilando entre suas “versões” humanas e zombicas.
Bons cenários, uma bela fotografia assinada por Dariusz Wolski (“Dark City” e “O Corvo”) e uma excelente partitura musical, devida a Klaus Badelt, ajudam ao êxito deste sucesso de verão. O argumento, divertido e barulhento qb, traz a assinatura de dois dos responsáveis pelo sucesso de “Shrek” (Ted Elliott, Terry Rossio, acrescidos aqui de Stuart Beattie e Jay Wolpert), o que é um bom ponto de partida, muito embora pudesse ter sido ligeiramente cortado nalgumas excrescências que tornam o filme demasiado longo.
Gore Verbinski (que assinara obras tão dispares como “Mouse Hunt” (Não Acordem o Rato Adormecido, 1997), “A Mexicana” (2001) ou “The Ring” (O Aviso, 2002) funciona relativamente bem no registo adoptado, entre o filme de aventuras e a paródia ao género, a comédia sentimental e o filme de animação. Afinal uma compilação de tudo o que fizera até agora, reunidos numa mesma obra.
Mas é no capitulo da interpretação que se deve sublinhar o trabalho magnífico de uma dupla perfeita: Geoffrey Rush e Johnny Depp, com destaque particular para este último, arriscando bravamente numa composição de truão amaneirado, andar trôpego e olhar lânguido, ornamentado ao jeito de árvore de Natal, de tez cigana e humor ácido.
in revista “História”


OS PIRATAS DAS CARAIBAS – A MALDIÇÃO DO PÉROLA NEGRA
Título original: Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl (2003)
Realização: Gore Verbinski (EUA, 2003); Argumento: Ted Elliott, Terry Rossio, Stuart Beattie, Jay Wolpert; Música: Klaus Badelt, Ramin Djawadi, James Michael Dooley, Nick Glennie-Smith, Steve Jablonsky, James McKee Smith, Blake Neely, James McKee Smith, Mel Wesson, Geoff Zanelli, Hans Zimmer / Xavier Atencio, George Bruns (canção "Yo Ho (A Pirate's Life for Me)"); Fotografia (cor): Dariusz Wolski; Montagem: Stephen E. Rivkin, Arthur Schmidt, Craig Wood; Casting: Ronna Kress; Design de produção: Brian Morris; Direcção artística: Derek R. Hill, James E. Tocci, Donald B. Woodruff; Decoração: Larry Dias; Guarda roupa: Penny Rose; Maquilhagem: Greg Cannom, Mary Kim, Martin Samuel, Brian Sipe, Keith VanderLaan; Direcção de produção: Paul Deason, Thomas Hayslip, Bruce Hendricks, Douglas C. Merrifield; Assistentes de realização: Bruce Hendricks, Peter Kohn, Darin Rivetti, Frederic Roth, Andrew Ward, Alexander Witt; Departamento de Arte: Julie Beattie Iiams, Robert A. Blackburn, Max E. Brehme, Hugh Conlon, Oscar Delgadillo, Monica Frommholz, Héctor M. González, L. David Gordon, Will Grant, Grey Hill, William Hiney, Mark Hitchler, Gregory S. Hooper, Carla S. Nemec, Tim Scheu, Domenic Silvestri, Charles Stewart, Darrell L. Wight, Christopher Woodworth; Som: Ulrika Akander, Christopher Boyes, Christopher Boyes, Valerie Davidson, Ken Fischer, Kenneth Karman, Alan Meyerson, Timothy Nielsen, Lee Orloff, David Parker, Solange S. Schwalbe, Karen Spangenberg, Jeanette Surga, Addison Teague, George Watters II, Dave Whitehead, Hans Zimmer; Efeitos especiais: Terry D. Frazee, Daniel P. Murphy, Michael O'Brien, Edward V. Pannozzo, Kai Shelton, Brian Van Dorn; Efeitos Visuais: Charles Bailey, Dugan Beach, Kim Boyle,Jill Brooks, Eric D. Christensen, Leigh Ann Fan, Jammie Friday, Charles Gibson, Geoff Heron, Bryan Hirota, Dennis Hoffman, John Knoll, Tim Landry, Gregory D. Liegey, Wayne Lo, Margaux Mackay, Gray Marshall, Aaron McBride, Patrick Neary, Paula Nederman; Produção: Jerry Bruckheimer, Paul Deason, Bruce Hendricks, Chad Oman, Pat Sandston, Mike Stenson.
Intérpretes: Johnny Depp (Jack Sparrow), Geoffrey Rush (Barbossa), Orlando Bloom (Will Turner), Keira Knightley (Elizabeth Swann), Jack Davenport (Norrington), Jonathan Pryce (Governador Weatherby Swann), Lee Arenberg (Pintel), Mackenzie Crook (Ragetti), Damian O'Hare (Gillette), Giles New (Murtogg), Angus Barnett (Mullroy), David Bailie (Cotton), Michael Berry Jr. (Twigg), Isaac C. Singleton Jr., Kevin McNally, Treva Etienne, Zoe Saldana, Guy Siner, Ralph P. Martin, Paula J. Newman, Paul Keith, Dylan Smith, Lucinda Dryzek, Michael Sean Tighe, Greg Ellis, Dustin Seavey, Christian Martin, Trevor Goddard, Vince Lozano, Ben Wilson, Antonio Valentino, Lauren Maher, Brye Cooper, Mike Babcock, Owen Finnegan, Ian McIntyre, Vanessa Branch, Sam Roberts, Ben Roberts, Martin Klebba, Félix Castro, Mike Haberecht, Rudolph McColam, Gerard J. Reyes, etc.
Duração: 143 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovusuais; Classificação etária: M/12 anos.

Segunda-feira, Julho 24, 2006


SYLVIE KRISTEL
Com Sylvia Kristel em Avança a dirigir um “work shop” sobre “cinema e pintura”, com uma obra realizada por si a abrir o certame, “Topor e Moi”, é altura de recordar uma entrevista com ela em Fevereiro de 1982, e duas críticas a filmes seus aparecidas, uma no “DL”, outra no “DN”. Sem retoques, mantendo o sabor da época.

DO HÁBITO DO CONVENTO
AO NU DE “EMMANUELLE”

Encontro com Sylvia Kristel

Esperava ir encontrar uma bo­neca mimada, tomando muito a sério o seu papel de “star sexy”. Encontrei a boneca e a “star”, mas não desmio­lada e mimada quanto seria de supor. Encontrei-a no living de uma sumptuosa suite de um dos melhores hotéis de Madrid. Sobre o corpo, um fato cinzento-claro, simples, escorrendo-lhe livre pelas formas que se adivinham a cada movimento. O cabelo curto, um medalhão dourado suspenso de um longo colar, umas botas de cano alto. Sylvia Kristel, “a mulher que educara sexualmente uma geração de espanhóis”, como fora dito no dia anterior, numa conferência de imprensa dedi­cada aos meios de comunica­ção social de Espanha, ali esta­va à minha frente. A Columbia tinha reservado a manhã desse dia para os dois críticos por­tugueses. José Vaz Pereira já disparara o seu questioná­rio em inglês.
Pelo meu lado, iria preferir o francês. A revelação de “Emmanuelle” fala ainda cor­rentemente o holandês, o ita­liano, e o alemão. A comunica­ção é fácil, portanto, ainda que exista algo nela que inti­mide um pouco. Os largos olhos azuis que nos fitam com alguma insistência? Ou será, muito simplesmente, a forma despreconceituosa e afável co­mo a vedeta recebe a impren­sa?
Nascida em Amesterdão, a 28 de Setembro de 1952, Sylvia Kristel começou a trabalhar como tradutora e assistente de um professor universitário an­tes de aparecer no cinema.
A actriz levava à boca uma garrafa de água (“Bebo três litros por dia”, confessa), quando lhe fizemos a primeira pergunta:

Teria sido “Emmanuelle” o seu primeiro contacto com o cinema?
Na Holanda trabalhei como actriz, quando era ainda muito nova. Como secretária, interessei-me pelo cinema. Um reali­zador disse-me um dia que tinha possibilidades de ser ac­triz. Que tinha um rosto clássico, uma figura que pode­ria ser aproveitada. Mas era preciso ir para a escola. Eu não tinha tempo para isso. Trabalhava. Surgiu, todavia, a hipótese de me inscrever numa agência de modelos. Aceitaram-me. Fiz aí alguns desfi­les de modas. Depois houve a eleição para Miss Televisão-Europa. Era um concurso para descobrir apresentadoras de programas da Eurovisão. Concorri e ga­nhei. Foi então que apareceu Just Jaeckin. O programa fora visto em nove países. Just Jaeckin veio à Holanda para fazer um teste de vídeo comi­go. Procurava alguém para “Emannuelle” e ficara impres­sionado comigo. Eu não sabia porquê. Lera o livro de Emmanuelle Arsan e a protagonista era muito diferente. Na época, eu era loura, muito loura, tipo muito nórdica. Porquê eu? Just Jaeckin disse que não fazia diferença. Que procurava sobretudo uma mulher de uma sensualidade normal. Agradeci e partimos para a Tailândia. Foi aqui que começou a minha carreira “Emmanuelle” foi o meu primeiro trabalho impor­tante.

A sua biografia fala de uma educação religiosa...
A partir dos doze anos estive num convento. Durante quatro anos. Uma educação muito rigorosa. Creio que quem rece­be uma educação deste tipo acaba por se transformar nu­ma ateísta. Éramos obrigados a ir para o escola todos os dias às sete menos um quarto. Todas as noites, depois de jantar, era preciso rezar. Eu não era praticante, era mesmo um pouco rebelde...

Acha que a sua carreira como actriz é uma reacção a essa educação?...
Não, creio que não.

Você é lançado num concurso de miss televisão. A propósi­to desses concursos de misses, fala-se muito da mulher-objecto, da exploração da mulher. Que é que pensa?
Não se tratava de um con­curso só de beleza. Era preciso ter outras aptidões. Era pre­ciso dançar, fazer entrevistas sobre vários temas, em várias línguas. Tratava-se de saber se as concorrentes eram capazes de fazer apresentações na Eurovisão. Fiz as provas todas. Tudo ia bem, até que uma senhora da organização infor­mou que a etapa seguinte era desfilar em fato de banho. Então aí eu recusei-me. Estava absolutamente contra. Disse que não desfilaria em fato de banho. Aconteceu o imprevis­to: todas desfilaram em fato de banho menos eu, que ia de mini-saia, sapatos pretos, chapéu... Fui a única a desfi­lar assim. Os membros do júri devem ter apreciado a origina­lidade, porque me escolheram a mim. Mas realmente eu achava mal desfilar em fato de banho.

Uma holandesa calma

Depois de ter interpretado “Emmanuelle” você passou a ser “Emmanuelle”. Como é que se sente perante esta identifi­cação?
E' terrível para mim. De um dia para o outro passei a ser um símbolo sexual. Enfim, acontecer-me isto a mim, urna calma holandesa...

... uma calma holandesa?...
Sim, uma holandesa calma. Apaixonada, um pouco român­tica, eu sei lá, mas quando estou com um homem sou muito monogâmica, muito cal­ma, não participo das teorias de “Emmanuelle”. Foi Sylvia Kristel quem interpretou “Em­manuelle”, nada mais do que isso. Mas as pessoas pensaram logo que Sylvia Kristel “era” “Emmanuelle”. Aproximavam-se de mim, olhavam-me, tocavam-me, perguntavam-me coisas, sei lá que mais. Comecei a sentir-me frustrada. Quero ser aceite pelas minhas próprias capacidades intelectuais, por mim mesma (aqui Sylvia Kris­tel sorri), não sei se serão muitas, se valerá a pena, mas em todo o caso essa sou eu. E' impossível viver-se na pele de outra, estar sempre a repre­sentar um papel...

“Emmanuelle”


Como é que explica o êxito internacional de “Emmanuelle”?
Penso que por vezes aparece um filme quê corresponde a um momento determinado da mentalidade do público, que se transforma rapidamente num grande êxito, num clássico. Toda a gente quer depois fazer filmes iguais. Aconteceu com os filmes de temor. É uma vaga que corres­ponde a uma necessidade íntima do público de uma certa época. “Emmanuele” foi o primeiro filme erótico a que um casal podia assistir, ho­mem e mulher lado a lado. Sabe que esse filme foi muito apreciado pelas mulheres, um pouco por todo o lado? Isso era um fenómeno novo...

... um erotismo sofisticado, com uma certa qualidade vi­sual...
O realizador foi Just Jaec-kin. Antes de ser cineasta já era artista plástico, pintor, escultor, fotógrafo. E' um homem com um grande sentido plástico.

Não gosto muito. E' demasia­do decorativo, exterior, dema­siado fotógrafo de modas...
Não será muito profundo, mas é visualmente muito bonito.

À “Emmanuelle” prefiro abertamente a “Emmanuelle 2”.
O realizador era outro, Fran­cis Giacobett. E' um filme mais forte. No primeiro, “Em­manuelle” é uma mulher ainda alienada pelo casamento, não conhecendo todas as raízes da sua vontade. No “Anti-Virgem” é uma mulher madura, adulta, caindo enquanto tal, assumindo o seu corpo e os seus desejos, com toda a sua responsabilidade. Ela comanda, se assim se pode dizer, a es­tratégia do seu desejo.

Chabrol e “A Vitima Fuga”

Um dos realizadores que a dirigiram em França foi Claude Chabrol, em “Alice, ou a Última Fuga”. Como é ser dirigida por Chabrol? Usa métodos diferentes dos de Just Jaeckin por exemplo?
Sim, Chabrol é mais calmo. Trabalha sempre com a mesma equipa. Interessa-se muito pela comida. Perguntava-lhe o que é que se fazia naquele dia, Chabrol dizia: “Ora vamos lá a ver: é isto, isto, e mais isto.” A atmosfera era calma, serena, de perfeito relax. Passava-se muito tempo á mesa. Eu perguntava-lhe se tinham algo de especial a dizer-me. “Não, tu sabes tudo o que deves fazer.” Fazia como sabia, perguntava-lhe se estava bem. Ele achava sempre que estava bem. “Tu sabes tudo!” Disse-me que eu tinha um talento extraordinário. Havia cenas muito difíceis em “Alice”. Por exemplo: há uma ena em que estou sentada numa mala, não posso sair dali; de repente pode ver-se nos meus olhos que há alguém que se aproxi­ma. Mas está tudo no meu olhar. Não se vê mais nada no écran senão o meu rosto, mas o público apercebe-se do que está para além do écran. Chabrol ficou muito satisfeito com esta cena. Disse-me que era preciso ser muito boa actriz para ser capaz de fazer aquilo. Mas ele construiu suficientemente o meu ego de forma a conseguir isso. Traba­lhei maravilhosamente com ele.

E com Just Jaeckin, o reali­zador de “O Amante de Lady Chatterley”?
Com Just Jaeckin fala-se muito antes de começar a trabalhar. Penso que com “Lady Chatterley*s Lover” fez o seu melhor trabalho até ao momento.
No dia anterior, na conferên­cia de imprensa dedicada aos espanhóis, Sylvia Kristel fora atacada um pouco por todo o lado, de forma um tanto ou quanto impiedosa, com di­chotes e comentários saborea­dos com um sorriso pelo marialvismo de “nuestros hermanos”. Na sala de conferências do mesmo hotel onde nos encontramos agora, jornalistas de imprensa variada, com preponderância dos órgãos de co­municação especializados em espectáculos, escândalos e “correio sentimental”, por en­tre risos cúmplices, e perante uma certa segurança profissio­nal da vedeta, foi-se sabendo que Sylvia Kristel procurava dar um novo rumo à sua carreira, afastar-se da imagem de “Emmanuelle”, que fora víti­ma de um colapso financeiro numa empresa que possuía na Bélgica, que vivia com André Djaqui, um dos produtores desta sua ultima obra, que tinha um filho do seu primei­ro casamento, com o escritor Hugo Clauss, que habitava presentemente em Hollywood, numa casa onde era vizinha (e amiga) de Bette Davis, que gostaria de interpretar filmes de Saura ou Buñuel, entre os cineastas espanhóis que ela mais admira, que trabalharia de bom grado ao lado de Fernando Rey. Mas as questões foram ainda mais além: como se sentia a rodar cenas de amor com a equipa técnica à sua volta, se preferia ser activa ou passiva durante o acto, se já alguma vez vivera realmente cenas sexuais perante as câmaras, ou se apenas as mi­mara. Com algum àvontade e por vezes um certo humor (“o que prefiro num, homem é sentido de humor e sensibilidade”, acrescenta), Sylvia Kristel a todos respondera com um ar acossado mal disfarça­do, que deixava vir ao de cima uma delicadeza de expressão e de gestos que faz seguramen­te um pouco do seu fascínio. Intérprete “arrojada” de alguns filmes polémicos, nunca a suavidade e a delicadeza a abandonaram. Vedeta “numero 1” de um certo tipo de cinema, símbolo sexual que, vindo dos anos 70, se apresta para conti­nuar pelos 80, com a mesma impetuosidade e iguais resulta­dos económicos, Sylvia Kristel traz a lição bem estudada, mas não a repete mecanicamente. Há uma ingenuidade (quem diria?) desconcertante nalgu­mas das suas atitudes. Está em Espanha para lançar na península “O Amante de Lady Chatterley”. Perguntamos-lhe se gosta de personagens como Constance Chatterley, e ela irresistivelmente confessa que do que mais gosta são comé­dias.
Quando quisemos saber quais os cineastas americanos com quem mais gostaria de trabalhar, há uma certa hesi­tação. A sua secretaria parti­cular, Julie, uma americana forte que já terá sido certa­mente o seu apoio noutras ocasiões difíceis, atravessa a sala, e Sylvia lança-lhe o repto: Julie, quais são os cineastas americanos mais jovens com os quais eu gostaria de traba­lhar? Julie lança lá do fundo os nomes de Paul Mazursky e Spielberg. Ela limita-se a confirmar os nomes. Depois pergunta-me com real curiosi­dade Porque é que hoje em dia há tantos realizadores americanos que são ex-stuntmen (duplos)?

“0 Amante de Lady Chatterley”

Voltamos a “O Amante de Lady Chatterley”, um dos mais admiráveis romances de toda a literatura erótica, mas não só. O livro de D. H. Lawrence não é só uma belíssima histó­ria de amor, mas igualmente um estudo de uma época, e das suas contradições sociais.

Acha que o filme reflecte por igual essas intenções?
Creio que Just Jaeckin valorizou sobretudo o lado visual. Não se pode fazer tudo num filme. Hoje em dia as pessoas têm tantos problemas em casa, no emprego, por todo o lado, que não se deslocam ao cinema para rever simples­mente esses problemas. Just Jaeckin quis fazer um filme que evoluísse num outro senti­do. Criou imagens onde as pessoas pudessem repousar. Uma espécie de férias mentais. Contar uma história de amor numa sinfonia de imagens. Nada de parecido com o lado agressivo de um Ken Russell...

Que também não é um cineasta da minha particular preferência, mas tem um estilo pessoal. As suas “Women in Love” são obviamente superio­res.
Ken Russel é muito difí­cil para as mulheres. É misógino.

Gosta da sua criação de Constance Chatterley?
Foi uma figura muito estudada, muito trabalhada. A personagem tem um passado, uma educação em Dresda, na Alemanha, tem um conheci­mento do mundo diferente do do marido. Ela viveu experiên­cias diferentes, não é tão aristocrática quanto o marido, julgo mesmo que não tem as mesmas ideias de Sir Clifford... Isso irá reflectir-se no filme, no seu comportamento...

Identifica - se pessoalmente com alguma figura que tenha interpretado até hoje?
Não de uma forma abso­luta, mas há em algumas mui­ta coisa que não repudio, que aceito...

George Cukor e Billy Wilder


Ouvi-a dizer que gostaria de bilhar sob as ordens de Billy Wilder e George Cukor. Porquê estes dois cineastas?
Porque me fazem pensar na época em que na América se faziam grandes comédias... Cukor é mesmo dos me­lhores cineastas de todos os tempos a trabalhar com actrizes, e a tratar a mulher... É verdade. Compreende ago­ra porque gostaria de trabalhar com ele?

Penso que sim.
Sylvia Kristel pormenoriza. Fala dos filmes que gostaria de fazer, comédias como “Quanto mais Quente Melhor”, e tantos ou­tros filmes interpretados por Marilyn Monroe ou Ingrid Begman. Lembro-me que Francis Girod, um cineasta que a dirigiu em “Rénne, la Canne”, a comparara a Katherine Hepburne.
Ah, sim? Sabe, Katherine Hepburne também era meio holandesa. (Depois ri-se, esten­de o pescoço para cima, aponta a nuca, e diz de uma forma não isenta de certa coqueterie:) Possivelmente so­mos parecidas na nuca. Na fragilidade. Não sei, mas gosto muito de Hepburne.
Depois de virem à baila os nomes de Marilyn, de Ingrid Bergman, de Hepburne, era fatal perguntar a Sylvia Kristel se ela gostaria de vir a ser uma grande comediante.
Sim, gostar, gostava. Mas não é preciso ganhar Oscars. Para mim já é muito impor­tante o facto de poder trazer para dentro dos cinemas mi­lhões de pessoas, com histórias não agressivas, divertidas se possível. Não tenho muita vontade de fazer grandes estudos. Sou um pouco preguiçosa para estudar agora Shakespea­re. Há muito melhores actrizes do que eu para esse tipo de trabalho. Admiro muito uma mulher como Faye Dunaway. Gostaria de caminhar nesse sentido.
Sylvia Kristel partia dentro em breve para a Suécia, onde iria igualmente lançar “O Amante de Lady Chatterley”. Antes, havia-nos confidenciado que gostaria de correr ainda ao Prado, para ver de perto a “Guernica”, de Pablo Picasso, coqueluche actual em Ma­drid. Teríamos de deixar o hotel, mas antes gostaríamos de saber o que pensava do amor, uma mulher que é tida como uma das grandes amoro­sas da tela, nestes anos mais recentes.

Ah, l’ Amour!

Ah, l’ Amour!... (Sylvia Kristel lançou-se para trás, reclinando a cabeça no maple onde se encontrava). Para responder a essa pergun­ta é necessário reflectir um pouco. Creio que o amor preci­sa de ser compartilhado. Como uma religião. Há pessoas que precisam de se sentir apaixo­nadas. Como eu, por exemplo. É muito importante para mim. Mesmo quando trabalho, preci­so de estar apaixonada. Mas, depois de cinco ou seis meses, começo a enervar-me, a notar pequenos pormenores estúpi­dos, eu sei, na pessoa com quem vivo, que indicam irremediavelmente que afinal não ê amor, que este já passou. (Faz uma pausa e depois continua:) Se fala de amor, tenho um grande amor pelo meu filho Arthur, pela rainha mãe. Tive um amor profundo por Hugo Clauss, que é o pai do meu filho... Com Ian McShane (outra ligação sua, muito fala­da na época) foi a catástrofe total. Nunca mais me poderei deixar envolver por uma pai­xão igual. Perdi imenso peso, fiquei fisicamente esgotada, le­vei dois anos e meio a recompor-me. Voltei ao cinema agora com “O Amante de Lady Chatterley”, mas para regres­sar tive de fazer um esforço incrível de concentração. Quando me encontrava sozinha, como por encanto, surgiu André Djaqui, o co-produtor deste filme, que acabaria por entrar na minha vida. Amo-o bastante. É com ele que vivo presentemente.
Para lá dos três filmes da série “Emmanuelle” (o primeiro assinado por Just Jaeckin, o segundo por Francis Giscobetti, o terceiro por François Leterrier). Kristel - que mui­tos consideram um “monumento” tão célebre co­mo a Torre Eifell ou o Folies Bergere (são os franceses que o dizem) - entrou em muitos outros filmes, dos quais convi­rá destacar “Une Femme Fidele”, de Roger Vadin; “Alice ou la Derniére Fugive”, de Claude Chabrol; “Rénne, la Canne”, de Francis Girod; “La Marge”, de Walerian Borowcsyz; “O Quinto Mosqueteiro”, de Ken Annakin, este rodado em Viena de Áustria, tendo-se depois radicado em Hollywood, onde se estreou em “Aeroporto 79”, ao lado de Alain Delon, prosseguindo uma carreira que flecte já para a comédia em “A Bomba Nua” ou “Kiss of Gold” (com Tony Curtis) ou “Private Lessons”. “Lady Chatterley's Lover” é o seu regresso à Europa, pelo menos pelo tempo de um filme, já que vive, em Los Angeles e espera rodar seguidamente, sob as or­dens de Cukor, um título que procura manter em segredo, mas que poderá muito bem ter algo a ver com uma nova versão de Mata-Hari.

E Portugal, conhece?

Sim, estive no Algarve e em Lisboa.

Gostaria de trabalhar em Portugal, com um realizador português?
Se não fosse um filme especulativo, se fosse um bom argumento, porque não?
Com este por que não dei­xámos Sylvia Kristel entregue aos cuidados da sua secretária particular e do director da Columbia em Espanha, que a irá levar de fugida até ao Prado, antes de a depositar no aeroporto de Barajas, rumo ao Norte. Há uma voluptuosidade doce no rosto desta mu­lher que o cinema nem sempre tem aproveitado com grande talento, cremos que nem sem­pre no melhor sentido. Vítima de uma personagem a que para sempre estará ligada, Syl­via Kristel merece talvez a atenção de um cineasta como George Cukor, que, em lugar de lhe mostrar a pele, procure desvendar um pouco do misté­rio daquele olhar azul e pro­fundo que tão suavemente en­volve todos os que a rodeiam. Sem vedetismos de grande da­ma, sem pretensiosismos es­cusados e descabidos, Sylvia Kristel é uma mulher de uma esplendorosa fotogenia, que os anos amadureceram (tem hoje 29 anos e um filho com sete), mas que mantém inalterável uma frescura nada postiça. Os cosméticos não ta­pam ainda as mazelas do tem­po, talvez porque o tempo lhe tenha sido generoso até ago­ra.
Lauro António, Diário de Notícias, de 10 de Fevereiro de 1982

LADY EMMANUELLE

Numa conversa que mantive­mos em Madrid com Syl­via Kristel (e de que muito proximamente daremos notícia aos leitores do «DN») a actriz confessou-se demasiado marca­da pelo seu trabalho em “Emmanuelle2. A partir do pri­meiro filme de Just Jaeckin ela quase deixou de ter indivi­dualidade própria, para ser conhecida apenas por “Emmanuelle”. E, depois deste filme inicial, Sylvia Kristel ainda interpretaria outros dois da mesma série, o que terá agra­vado consideravelmente as coi­sas.
Não será, portanto, de estra­nhar que a conferência de imprensa dada por ela tenha sido abertamente dominada pelo fantasma de “Emmanuelle”, mesmo que o tema tenha sido o lançamento do seu ultimo título, uma adaptação do ro­mance de D. H. Lawrence, “O Amante de Lady Chatterley”, um outro clássico do erotismo literário, de novo posto em cinema, agora por Just Jaeckin.
Poderia ser injusto este con­tínuo relembrar de “Emmanuele” numa altura em que a actriz procura evoluir para outras personagens e abordar outros géneros de filmes, mas, no caso de “Lady Chatterley's Lover”, há algo que une essas duas cria­ções, para lá de tudo o mais que as diferencia: Just Jaeckin e a sua estética, de um decorativismo superficial que nunca consegue recriar uma atmosfe­ra humana ou impor uma den­sidade psicológica. Desse in­conveniente se irá ressentir o próprio trabalho de Sylvia Kris­tel, apenas mais um adereço no cenário. Evoluindo em ambien­tes muito diferentes dos atravessados pela heroína de Emmanuelle Arsan, Constance Chatterley (e como ela quase todos os demais protagonistas desta violenta história de amor) não assume nunca uma identidade específica, prefigurando-se apenas como uma silhueta na paisagem, sem consistência ou “élan”. De­feito da actriz? Custa-nos a acreditar que seja ape­nas falha de Sylvia Kristel (que já vimos fazer muito melhor dirigida por outros cineastas, como Chabrol, por exemplo). Inclinamo-nos mais para uma consequência directa do estilo de cinema de Just Jaec­kin, que não procura nunca aproveitar as potencialidades intimistas dos seus actores, para lhes preferir passear com a câmara por sobre o rosto e o corpo. Um cinema de superfície, portanto, que o é igualmente ao nível dos confli­tos sociais.
“O Amante de Lady Chatter­ley” não é somente uma histó­ria de amor provocante pelas condições em que surge e decorre. Outro grande mérito do livro de D. H. Lawrence, para lá dessa libertação do cor­po que pronuncia e reivindica, é o conflito social que deixa entrever. Para Sir Clifford não é gravoso que Constance tenha um amante. Fora ele próprio quem lho sugerira, a partir do momento em que se sabia um destroço de guerra. Mas é-lhe insuportá­vel saber que Constance man­tém relações com o seu guarda de caça, dado que não se trata de um homem da mesma con­dição social e esta promiscuidade social é-lhe bem mais intolerável que toda a possível promiscuidade sexual.
Posta a questão nestes ter­mos, haverá que reconhecer que a Just Jaeckin nunca lhe interessou muito este lado do problema. Para ele bastavam-lhe os castelos e os interiores ingleses, as paisagens verdejan­tes, os miosótis nos cabelos de Constance e Olàver Mellors, o corpo de Lady Emmanuelle e o do amante de Lady Chat­terley. O seu cinema é o de um fotógrafo de modas e, ao que se sabe, nunca um fotógrafo de modas se preocu­pou com algo mais do que seja valorizar devidamente as aparências. De resto, “O Amante de Lady Chatterley” opta abertamente pelo público sofisticado dos grandes boulevares, desenvolvendo-se sem uma provoca­ção, tudo justificando (inclusive pela escolha dos intérpretes: não é por acaso que é um antipático Shane Briant que interpreta o papel do marido), vivendo essencial­mente de belíssimos cenários naturais, bem fotografados por Robert Fraisse. Quanto aos intérpretes, descontada que seja essa tendência para a super­ficialidade, parece-nos de subli­nhar o seu correcto trabalho, valorizando devidamente o de Ann Mitchell, uma excelente enfermeira.

O AMANTE DE LADY CHAT­TERLEY (Lady Chatterley's Lo­ver), de Just Jaeckin (Ingíaterra, 1981); Argumento: Christopher Wickihg e Just Jaec­kin; Música: Stanley Myers e Richard Harvey; Fotografia (technicolor): Robert Fraisse; Intérpretes: Sylvia Kristel, Sha­ne Briant, Nicholas Clay, Ann Mitchell, etc. Distribuição: Columbia; Classificação: Interdito a menores de 13 anos; Estreia; Cinema Monumental (26.1. 1982).
Lauro António, Diário de Notícias, 27 de Janeiro de 1982

“EMMANUELLE":
EROTISMO" DE LUXO
COM FUMAÇAS SUBDESENVOLVIDAS

Há filmes pornográficos para os “cinemas de bairro”, há agora o filme pornográfico “de luxo”, para a clientela “snob” das avenidas novas de todas as capitais. Esse filme é obvia­mente “Emmanuelle”, retirado de um romance famoso de Emma­nuelle Arsan. 0 romance é reaccionário e colonialista, mas é profundamente erótico. Literariamente, pode considerar-se um docu­mento invulgar, dado que é extremamente rara uma obra deste tipo, de alta qualidade lite­rária, o que é o caso (referimo-nos, à versão original fran­cesa, dado que desconhece­mos a portuguesa que por aí circula presentemente).
Just Jaeckin foi fotógrafo de modas (Marie-Claire e Mademoiselle Age Tendre). “Emma­nuelle”, primeiro filme de Jaec­kin, é por isso mesmo um filme com fotografia de revista de modas (aqui e ali copiando, mal, a fotografia esbatida de David Hamilton), com meia dúzia de cenas ousadas para a burguesia se entusiasmar. Se não for muito exigente, quer se veja o caso sob um ponto de vista erótico, quer sob um prisma cinematográfico.
De resto, temos a explo­ração do exotismo (a Indonésia “para turismo ver” e arqueólo­go de passeio comer o seu pe­tisco); temos a defesa do colo­nialismo e da ociosidade do branco (“como é difícil passar estes dias sem fazer nada”; “a arte de não fazer nada”, etc., etc..); temos ainda o erotismo como actividade lúdica “de eleitos”; temos o horror da me­nina perante a miséria dos autóctones; temos um diálogo profundamente estúpido, na­quelas circunstâncias, dado que no livro existe uma outra intensidade e uma outra pro­fundidade intelectual na dis­cussão do tema “libertação da mulher”. Sobre a “libertação da mulher” muito mais se po­deria dizer: “Emmanuelle” tenta a sua libertação através do ero­tismo, mas que dizer das mui­tas asiáticas que vemos transportando fardos, ou vivendo na mais negra miséria? Será a “li­bertação da mulher” esse jogo intelectual proposto por “Emma­nuelle”?
Desastrosa é ainda a inter­pretação: Sylvia Kristel pode ser bonita mas é um perfeito desastre como actriz; Alain Cuny é um “Mário” de um ridí­culo inultrapassável; Daniel Sasky, o marido, é de fugir... E teremos que concluir que o único actor à altura é a contorcionista que, fumando, dá a no­ta inédita neste espectáculo lu­xuoso, onde se demonstra que certo erotismo não passa de uma “chatice”. Os 90 minutos de “Emmanuelle” são por vezes dolorosos de passar. Que críti­ca mais contundente se pode­ria escrever?

EMMANUELLE, de Just Jaeckin, (França, 1974); Argumento segundo romance de Emmanuelle Arsan; Intérpretes: Sylvie Kristel, Alain Cuny, Marika Green, Da­niel Sarky, Jean Coletin, etc. Distribuição: Filmes Ocidente; Estreia: Cinemas Roma e Pathé (17.4.75)
Lauro António, Diário de Lisboa, 26 de Abril de 1975

Quarta-feira, Junho 28, 2006

RIDLEY SCOTT:
“HANNIBAL “CANNIBAL” LESTER”


Em 1991, Jonnathan Demme, sobre romance de Thomas Harris, deu à luz um clássico o filme de horror, “Silence of the Lambs” (O Silêncio dos Inocentes), onde um fabuloso Anthony Hopkins, na composição do Dr. Hannibal “Cannibal” Lester (a personagem da sua vida!) defrontava uma não menos notável Jodie Foster, na figura de Clarice Starling, uma agente do FBI destacada para interrogar o inquietante, sôfrego e voraz assassino que devora as suas vítimas. Penetrar nos segredos mais recônditos da mente de um psicopata, feito prisioneiro, para assim chegar até junto de um “serial killer” que não se consegue localizar, eis a iniciação proposta a Clarice. Da relação entre ambos, sabe-se agora que vimos a sequela, mas já descortinaramos no original, nasce uma paixão impossível e uma admiração suspeita. O sucesso foi súbito, esó espanta os anos que levou a concretizar a continuação. Ela aí está.
Mantendo Anthony Hopkins no centro do psico-drama, mas alterando tudo o mais, deve dizer-se que “Hannibal” não sustenta uma comparação com o filme inicial. Mas será esse o propósito de Ridley Scott, o realizador de O Gladiador, que assume a direcção desta obra? Em parte, é evidente que “Hannibal” continua o “Silêncio dos Inocentes”, impondo portanto a comparação. Por outro lado, Ridley Scott procura um diferente tipo de aproximação da figura de Hannibal Lester, e de todos os seus comparsas. Clarice tem agora o rosto de Julianne Moore (excelente, mas sem o peso e a crispação de Jodie Foster). Surge a personagem do inspector Pazzi (uma brilhante interpretação de Giancarlo Gaiannini, que chega a “roubar” o filme a Hopkins!). Gary Oldman é o destruído Mason Verger, que sonha vingar-se de Hannibal, idealizando tormentos inimagináveis. E temos ainda Florença, exílio dourado de Hannibal, que se passeia nas suas ruas habitadas pelo clima de fim de mundo que é bem a marca de Ridley Scott (veja-se “Blade Runner”, ou “Chuva Negra” ou mesmo “O Gladiador”).
Mais “gore” que o seu arquétipo, mais virado mesmo para o humor negro (mas um humor negro visceral!), “Hannibal” seria um bom filme de terror psicológico, não fora o caso de existir um referente com o qual é impossível impedir a comparação. Tudo indica que a continuação da continuação apareça por aí, mais ano, menos ano.


HANNIBAL (Hannibal), de Ridley Scott (EUA, 2001), com Anthony Hopkins (Hannibal Lecter ), Julianne Moore (Clarice Starling), Giancarlo Giannini (Pazzi), Gary Oldman (Mason Verger), Ray Liotta (Paul Krendler), etc.131 min; M/ 12 anos. In “A Bola” de 4.03.2001.

PEDRO ALMODOVAR:
“FALA COM ELA”


Dois homens assistem, lado a lado, a um bailado de Pina Bausch (“Café Muller”). Um chora ao ver o espectáculo da solidão e da incomunicabilidade que o palco sugere: duas mulheres, aparentemente cegas, caminham por entre as cadeiras (de um café?) que um homem diligentemente vai tentando afastar do seu caminho. Mas as mulheres esbarram contra as paredes e como autómatos repetem os mesmos gestos até à exaustão.
Os dois homens que se encontram na plateia não se conhecem mas, como sempre em Almodovar, as suas personagens parecem premonitoriamente inclinadas ao encontro num futuro e num espaço que o destino se encarregará de inventar. Benigno é enfermeiro, vive só, depois da morte da mãe a quem assistiu durante longos anos de renuncia à vida (da mãe que se enclausurou, dele que a acompanhou minuto a minuto, com apenas alguns instantes de pausa para olhar pela janela do seu quarto os movimentos de Alicia, uma jovem estudante de bailado, que frequenta as aulas no edifício em frente do seu). Na clínica onde trabalha toma conta agora de Alicia que, entretanto, vítima de um acidente de automóvel, se encontra em coma profundo.
O outro homem desta história de uma amizade que nasce por acaso, é Marco, argentino a viver em Madrid, jornalista, autor de vários guias turísticos, que escreve para o “El Pais”. Um dia encontra Lydia, uma toureira que atravessa um momento de dolorosa angústia, depois de ter sido abandonada pelo amante, com quem partilhava também as faenas nas praças de touros. Marco desconhece “tudo sobre touros, mas sabe bastante sobre mulheres desesperadas”. É assim que estabelece contacto com Lydia e é assim que se inicia um idílio, quebrado pelo acto suicida da toureira, oferecendo o corpo à arremetida dos cornos do animal, “a las cinco en punto de la tarde”, num dia em que escolhera defrontar 6 touros, perante o olhar do ex-amante e também do actual. Ela quer morrer na praça, mas apenas conseguirá ser levada para a clínica, a mesma onde se encontra Alicia, numa situação idêntica. Assim se cruzam Alicia e Lydia, Benigno e Marco, duas histórias de um amor louco e desesperado, que nem a proximidade da morte abranda, mas que se expressam por formas de convívio muito diverso. Benigno fala com Alicia, vai à Cinemateca ver os filmes mudos que ela gostava de ver, conta-lhos depois, durante sessões de amaciamento da pele e de lavagem do corpo. Marco não se consegue aproximar de Lydia e não compreende por que Benigno fala com um corpo quase cadáver que não pode ouvir. Mas o enfermeiro não tem dúvidas e não hesita: “habla con ella”, assim ela se sentirá menos só, assim sentirá a presença de alguém que se preocupa, que deseja o seu regresso à vida.
Marco é um homem que utiliza a palavra no seu dia a dia e que tem dificuldade em a usar de forma não racional. Ele escreve “Guias” e a palavra para si é ofício, trabalho, ferramenta de comunicação. Benigno serve-se da palavra de uma forma muito mais inocente e ingénua, na linha dos grandes rituais primitivos, na invocação dos espíritos. A aparente incoerência de alguns actos não o perturba – ir ver filmes “mudos” para depois os contar a Alicia é algo que não o afecta minimamente, nunca pondo em causa a “impossibilidade” da transmissão a outro de uma obra de arte que prescinde da palavra. Benigno acredita no contacto físico (as mãos no corpo de Alicia são uma terapia, um acto de amor, uma forma de diálogo), no poder da palavra (mesmo que a destinatária dessas palavras se encontre num estado puramente vegetativo – não se fala também às plantas e às flores?), no poder da partilha, da entrega, da dádiva (mesmo que essa dádiva seja uma acção unilateral e violenta, como a que estabelece por fim com Alicia e que o levará à tragédia). Quando Benigno se encontra preso, a sua necessidade de diálogo mantém-se – telefona, fala no parlatório com Marco, estende as mãos ao longo dos vidros, escreve cartas e deixa mensagens, oferece a sua casa ao amigo, partilha a sua intimidade, quer saber tudo sobre Alicia... Benigno é um ser que partilha um mundo sem maldade: quando penetra no quarto de Alicia, vai com os olhos límpidos, quando viola territórios proibidos é a pureza dos sentimentos que o comanda (o mesmo se sentindo quanto ao protagonista do filme “mudo” que vê - "Amante Menguante" - , filme que de certa forma antecipa e substitui uma cena elidida por Pedro Almodovar).
“Fala com Ela” convoca uma narrativa aparentemente de extrema complexidade, sobrepondo diversos registos que o espectador terá de reunir e a que conferirá um significado global. Por uma lado temos as “visões” de Benigno e de Marco, de início separadas, montadas em paralelo, depois unificando-se numa montagem em confluência. Mas também haverá a considerar, ainda que de uma forma muito ténue, os pontos de vista de Lydia e Alicia, sobretudo nalguns “flash backs” onde são recordadas em vida completa, e uma delas mesmo, depois dessa passagem pelo limbo da morte. Finalmente, há que não descurar a posição do realizador, a sua “visão” omnipresente de “Deus ex-machina”, que constrói a obra, a escreve e a dirige, de forma muito particular e mesmo autobiográfica (não será este filme uma consequência directa da recente morte da mãe do cineasta madrileno?) e deixa vestígios evidentes e deliberadamente assumidos desta posição – veja-se a cena rodada na casa de Sevilha de Pedro Almodovar, onde Caetano Veloso canta para uma plateia de amigos pessoais do cineasta (entre os quais actrizes como Marisa Paredes e Cecilia Roth, que nada têm a ver com este filme, mas que estabelecem uma voluntária - ou involuntária? - relação com o filme precedente deste autor: “Tudo Sobre a Minha Mãe”).
A relação com “Tudo Sobre a Minha Mãe” não se estabelece apenas aí, mas de uma outra forma, esta perfeitamente clara: no filme anterior, Almodovar termina a narrativa com a descida de uma cortina de teatro que encerra a representação. Em “Fala com Ela”, a obra inicia-se precisamente com um cortinado de teatro que sobe e deixa ver, em primeiro plano, o rosto de Pina Bausch, durante a representação de “Café Muller”. Em ambos os filmes, portanto, Almodovar procura dizer-nos que assistimos a uma representação, uma criação artística (como a dança ou a tourada, presentes em “Fala com Ela”, como o teatro, em “Tudo Sobre a Minha Mãe”), um registo manipulado com efeitos precisos dramáticos, ou não fossem estas obras recuperações sublimes do estilo do melodrama que tantas e tão gloriosas referência deixou ao longo de toda a história do cinema, desde o americano Douglas Sirk até muitos outros autores latino-americanos (inclusive o tão citado, e tão justamente, Luís Buñuel, de quem Almodóvar tanto de aproxima por vezes, de uma forma fulgurante até no pequeno filme, de sete minutos de duração, que relembra declaradamente obras surrealistas dos anos 20).
Filme sobre o poder da palavra? Sim. Mas também filme sobre a força do olhar, ou não nos encontrássemos perante uma obra que referencia espectáculos que se olham, e com os quais nos emocionamos através desse olhar. O bailado que leva Marco ao choro (o “ballet” que lhe recorda uma paixão perdida, uma memória dolorosa); a tourada, onde o artista enfrenta a morte no silêncio de uma arena, perante o olhar do público; o cinema “mudo”, cuja principal característica era exprimir-se “sem palavras”; os corpos calados das mulheres amadas que o olhar dos que as rodeiam tornam corpos vivos e desejáveis...
O que nos leva a penetrar num outro terreno, o da necrofilia, que tem sido pontualmente abordado pelo cinema, por autores como Buñuel (“Ensaio para um Crime”, entre outros) ou Hitchcock (“A Mulher que Viveu Duas Vezes”) e que Almodovar retoma brilhantemente, conciliando necrofilia e milagre, aproximando-se assim de outra obra-prima do cinema, “A Palavra”, de Carl Dreyer. Enquanto em Dreyer, uma mulher morre após um parto, e é ressuscitada pela palavra de um louco que se julga predestinado, em Almodovar, o milagre acontece de forma quase inversa: uma mulher ressuscita para a vida, após um parto, gerado na violência de uma violação, provocado por um outro predestinado. “Os caminhos do Senhor são insondáveis”, diz a voz popular, e “Fala com Ela” confirma-o.
“Benigno e Alicia”, “Marco e Lydia”, “Marco e Alicia” são as frases que pautam a narrativa, criando capítulos, dividindo espaços próprios. Os sobreviventes reconhecem-se durante uma outra representação de Pina Bausch (precisamente a cabo-verdiana “Masurca Fogo”, uma produção para Expo-98 aquando da estadia da bailarina em Lisboa), trocam olhares de uma cumplicidade evidente e falam. Mas são os olhares de Marco que prevalecem neste labirinto de encontros e desencontros que é a vida. O olhar que faz viver o cinema, que cria a magia, que faz da mentira uma verdade, “24 imagens por segundo”.
Se o cinema de Almodovar foi quase sempre um cinema de mulheres, desta feita são os homens que ocupam o lugar de protagonistas. Javier Cámara (Benigno) e Darío Grandinetti (Marco Zuloaga) são admiravelmente dirigidos e mostram-se de um rigor e de uma sobriedade notáveis, num filme que coloca Pedro Almodovar entre os maiores, e os mais raros, cineastas da actualidade. O seu trabalho revela-se de uma maturidade de estilo e de uma austeridade de processos invulgares, afastado que foi o tom picaresco e satírico da sua primeira fase “kitch” e barroca. Estamos abertamente no campo do melodrama, de um melodrama onde os sentimentos progridem secretamente, de forma ciciada, mas de uma envolvência emocional deslumbrante, como nessa cena única em que Caetano Veloso canta «Dicen que por las noches/ no más se le iba en puro llorar/ (...) Juran que el mesmo cielo/ se extremecia al oir su llanto/ como sufria por ella/ que hasta en su muerte la fue llorando.» Nunca Caetano Veloso cantou assim, ou nunca Caetano Veloso foi visto assim. Um momento de arrepiante beleza e de sublime emoção. Que apetece ver e rever, vezes sem conta, como todo o filme.
Fala, olha, canta, dança, representa, toureia, lava o corpo de uma doente, filma... mas sempre com amor, que o amor move montanhas!

FALA COM ELA (Hable con Ella), de Pedro Almodóvar (Espanha, 2002), Com Javier Cámara (Benigno), Darío Grandinetti (Marco Zuloaga), Rosario Flores (Lidia), Leonor Watling (Alicia), Geraldine Chaplin (Katerina Bilova), Paz Vega (Amparo), Fele Martínez (Alfredo), Mariola Fuentes, Chus Lampreave, José Sancho, Adolfo Fernández, Elena Anaya, Loles León, Lola Dueñas, Ana Fernández, Fernando Guillén Cuervo, Helio Pedregal, Caetano Veloso, Pina Bausch, etc. 112 minutos; M/ 12 anos. In “A Bola”, de 23.06.2002

BAZ LUHRMANN:
“MOULIN ROUGE”


Lembram-se da história do optimista e do pessimista, do copo de água meio cheio ou meio vazio? Pois “Moulin Rouge” presta-se a considerações semelhantes: tanto pode ser visto como obra de génio, com alguns falhanços pelo meio, como um filme falhado, atravessado por momentos de génio. Há em Baz Luhrmann coisas de génio, não restam dúvidas. O que já vem de obras anteriores como “Strictly Ballroom” (1992) ou “Romeo + Juliet” (1996), mas cristaliza aqui de forma inequívoca. Este australiano (nascido em 1962) tem uma imaginação transbordante, uma desmedida paixão pelo cinema e os “musicais”, uma alma romântica, excessiva e operática (não será por acaso que já foi encenador de ópera), que lhe permite agarrar em grandes histórias de amor e re-inventá-las, re-escrevê-las de uma forma muito especial. No seu caso, sou um optimista declarado.
“Moulin Rouge" é pena falhar nalguns pequenos aspectos, senão estaríamos na presença de uma obra-prima incontestável, por muito mal que alguns espíritos tacanhos dela digam. O cinema, como qualquer arte, não vive de estereótipos, evolui na sua estética, adapta-se ao seu tempo, absorve novas formas de narrativa, integra-as numa sintaxe que não se deve fossilizar. Quem diz que o cinema morreu ou vive nostálgico de um passado que é passado, quem proclama do alto da improvisada cátedra que o cinema deve ser assim ou assado, deve achar que a pintura parou no século XIX, ou pensar que Andy Wharol mais não faz do que copiar a estética da publicidade, e outras coisas de igual jaez, por muito moderno que queira parecer. Afirmar que este filme é um enorme video clip é não perceber nada do que se vê, não ter sensibilidade para aceitar novos modelos de escrita, julgar que o cinema ainda se encontra – e aí ficará para sempre – nos tempos dos Lumière.
É evidente que “Moulin Rouge” tem uma estética que o suporta. Baz Luhrmann, goste-se ou não, sabe o que faz. A ideia dele é criar um espectáculo, tal como o escritor e poeta protagonista desta trágica história de amor cria um “Espectáculo, Espectáculo!” para o novo palco do “Moulin Rouge”. Um espectáculo que se assume como um óbvio “pot-pourri” de canções que ressalta aos olhos de qualquer espectador, mas igualmente um “pot-pourri” de imagens e influências cinematográficas sacadas daqui e dali, do musical americano da época de ouro (“Um Americano em Paris”, “Serenata à Chuva” e tantos outros), de Bob Fosse (“Cabaret” ou “All That Jazz”), mas também do “Moulin Rouge”, de Huston, ou de “French Can Can”, de Jean Renoir.
A ideia evidente de Baz Luhrmann é erguer um espectáculo sobre Paris na viragem do século XIX para o século XX (espectáculo esse realizado na viragem de um novo século), sobre a vida boémia que rodeava o célebre “Moulin Rouge” de então, que Toulouse-Lautrec e outros (Satie, por exemplo) tornaram um ícone. Mas Baz Luhrmann não tenta enveredar por uma via realista de reconstituição histórica, mas sim esboçar de uma forma quase expressionista um mito através das referências lendárias que dele restam. Por isso o filme principia com os cortinados de um palco que se abrem, e encerra com os mesmos cortinados a fecharem e a concluírem a evocação da memória. Por isso a reconstituição de Paris-1900, ou dos espaços do cabaret, é feita em estúdio, na Austrália, de uma forma quase acintosa: Baz Luhrmann quer manifestamente que o espectador perceba que não está na realidade, mas numa outra realidade, a dos sonhos, dos mitos, das memórias evocadas. É um jogo que nos é proposto, um jogo onde se entra ou não. Quem não entra perde a jogada.
Christian (Ewan McGregor), oriundo de família austera, chega a Paris para beber a vida boémia de final do século. O “Moulin Rouge” é a meta, e aí encontra Satine (Nicole Kidman), uma cantora, bailarina e cortesã de luxo, que o dono do carabet, Harold Zidler (Jim Broadbent), explora a seu belo prazer, instigando-a a vender os seus favores ao Duque de Monroth (Richard Roxburgh) que promete financiar um novo espectáculo e lançar Satine como actriz. Christian entra em contacto com Toulouse-Lautrec (John Leguizamo), Satie (Matthew Whittet), e demais comparsas de Monparnasse, e todos resolvem escrever o tal espectáculo de sonho, onde (coincidência das coincidências!) uma cortesã oriental se apaixona por um tocador de cítara, e abandona os favores de um sultão endinheirado. Obviamente que Christian se apaixona loucamente por Satine, e esta por ele, indo adiando até ao impossível o fatídico encontro com o Duque. O impossível é mesmo a noite de estreia de “Espectáculo, Espectáculo!”, onde a ténue intriga do filme se mistura com a fantasia do teatro, interligando caminhos que se cruzam das mais variadas formas. Quando o amor parece triunfar, a morte (que anda sempre paredes meias com os apaixonados trágicos, veja-se “A Dama das Camélias”, por exemplo) faz a sua aparição triunfal, mas, se as lágrimas podem aflorar aos olhos dos mais sensíveis, estas nunca serão só de tristeza, mas também de prazer pelos momentos de deleite visual e musical que acabaram de presenciar.
É evidente que a intriga de “Moulin Rouge” é primária e esquemática, como esquemáticos e simplistas são os recortes psicológicos das personagens. Não é isso que interessa a Baz Luhrmann. “Moulin Rouge” é um soberbo “musical”, o mais voluptuoso e fulgurante musical dos últimos anos, com momentos absolutamente sublimes. Os “números” musicais são quase sempre fabulosos. Os excertos de intriga que os reúnem nem sempre são da mesma qualidade e por vezes descem a um nível de um decepcionante burlesco grotesco (como no caso da primeira aparição de Toulouse-Lautrec e do seu grupo de amigos), acentuado por uma representação desequilibrada e por um realização, aqui sim, algo inconsequente, e com uma montagem deficitária. Mas o início da película é fulgurante, a sequência de Satine cantando “Diamants are a Girl’s Best Friend” é divina, o “medley” que associa “All You Need Is Love”, dos Beatles, a “I’ll Always Love You”, de Whitney Houston, é magistral, a versão “Like a Virgin”, cantada por Harold Zidler, imperdível, o tango de “Roxane”, um momento de antologia. Por vezes, a magia nasce de forma encantantória, como quando os chapéus dos espectadores do “Moulin Rouge” sobem no ar, e crescem para os céus iluminados de um deslumbrante Paris de maqueta, ou quando os apaixonados se reúnem no alto do elefante que domina os telhados de Paris. Toda a sequência final, que “atira” para o “kitch” dos “musicais” indianos é igualmente exuberantemente deliciosa e, por momentos, o espectador refreia a respiração perante a beleza de alguns enquadramentos, de alguns movimentos, de algumas filmagens verticais (que homenageiam seguramente o génio nunca esquecido de Buzz Berkeley).
Deve saudar-se a coragem de Baz Luhrmann ao colocar lado a lado David Bowie e “Música no Coração”, como também se deverá sublinhar com algum desagrado um ou outro momento de desacerto já referido. Mas globalmente, este é um dos títulos de ouro de 2001, mais um “filme de culto” a acrescentar à lista dos cinéfilos, e, ou muito nos enganamos, ou já está encontrado um dos mais fortes candidatos aos “Oscars” deste ano. Direcção artística, guarda-roupa, fotografia, a inqualificável Nicole Kidman (que dizer de uma mulher e de uma actriz como esta aqui?), o excelente Ewan McGregor (seguro e discreto), o fabuloso Jim Broadbent, a própria realização de Bazz Luhrmann são candidatos certos. E alguns “Oscars” estão seguros.

MOULIN ROUGE! (Moulin Rouge!), de Baz Luhrmann (EUA, 2001), Com Nicole Kidman (Satine), Ewan McGregor (Christian), John Leguizamo (Toulouse-Lautrec), Jim Broadbent (Harold Zidler), Richard Roxburgh (Duque de Monroth), Matthew Whittet (Satie), etc. 127 minutos; M/ 12 anos. in "A Bola" de 10.11.2001.

ROLAND EMMERICH:
“O PATRIOTA”

“O Patriota” revisita os anos que antecederam a Independência dos EUA. Estamos em 1776, na Carolina do Sul. Benjamin Martin (Mel Gibson), celebrizado pela sua coragem na luta contra franceses e índios, vive agora inteiramente dedicado à sua família e herdade, e à construção de cadeiras de balouço que se vão partindo à medida que nelas se vai sentando. Uma vida sossegada, para fazer esquecer os horrores que havia praticado e havia visto, e que não queria ver repetir em frente dos filhos. Mas a ferocidade dos ingleses ocupantes, sobretudo de um tal coronel Tavington que ataca civis desarmados com a volúpia assassina de um oficial da Gestapo, leva Martin a rever as suas decisões e a solicitar o ingresso nas fileiras do exército que luta pela Independência. Com o posto de coronel e comandando um grupo de milícias armadas que descobrem novos métodos para se opôr às tradicionais tácticas dos oficiais ingleses. Em lutar de aceitar lutar em campo aberto, perante um exército poderoso e bem armado, Martin opta por uma luta de guerrilha que vai minando a confiança dos adversários e criando o mito de um "fantasma" que consegue derrotar sozinho batalhões de soldados ingleses.
Entre avanços e recuos, a guerra continua até à vitória final (que já se sabe, antes do filme se iniciar - faz parte da História!). Mas se se sabe o resultado do fim da guerra (o que não seria importante para o êxito do filme: também se conhecia de antemão o destino do Titanic), já o mesmo se não pode dizer de cada novo passo dos protagonistas desta história. O argumento, escrito por Robert Rodat (o mesmo de “O Resgate do Soldado Ryan”), não despreza um único clichet: Martin é viúvo, visita a campa da esposa, ama os filhos, será a morte de um deles que o levará a pegar em armas, cada cena de violência tem um contraponto sentimental ou humorístico, os ingleses são verdadeiros vilões, os negros lutam (?) pela sua emancipação, de forma ordeira e politicamente correcta, cada personagem é uma "personagem", as criancinhas são lindas, louras e de caracóis, as meninas (em idade de casar) são doces e puras, e os vilões da história estão lá para não deixarem em paz as crianças e as mulheres, os aleijados e os padres, os patriotas e os arruaceiros convertidos à causa. São 164 minutos sempre previsíveis. Mesmo os incêndios das igrejas com os fieis aferrolhados lá dentro são previsíveis.
Quem não gostou da previsibilidade foram os ingleses que se sentem maltratados em demasia, nem os negros que se sentem menosprezados, nem os americanos com um coeficiente de inteligência normal (ou superior) que acham que tanto patriotismo também chateia. Roland Emmerich dirigira já anteriormente um título patriótico, mas divertido, à força de tamanho exagero (“O Dia da Independência”). Agora toma-se a sério, e os americanos são mesmo um povo porreiro, tão porreiro que se calhar não existe como tal.
Com uma boa direcção artística (Kirk M. Petruccelli), um belo guarda roupa (Deborah L. Scott), uma fotografia fabulosa (de mestre Caleb Deschanel), uma partitura épica (do incontornável John Williams), “O Patriota” tem alguns bons momentos de acção (certas sequências de guerra, ou um treino militar montado em paralelo com os efeitos desse treino, por exemplo), e outras absolutamente intragáveis (Martin em contraluz na igreja, as cenas de "repouso do guerreiro" numa aldeia negra à beira mar...). Mas o melhor do filme (para lá da fotografia) é o casting masculino com uma escolha perfeita de actores para personagens. Jason Isaacs é excelente no vilão, Tom Wilkinson brilhante no General inglês, Chris Cooper confirma as qualidades demonstradas em “Beleza Americana”, e por aí fora. As actrizes não se mostram à altura e Mel Gibson alterna o bom e o banal, demonstrando que o seu forte são “As Motos da Morte” ou as “Armas Mortíferas”.
Às vezes, os filmes reaccionários são obras-primas. Já aconteceu (“O Nascimento de uma Nação”). Mas, outras vezes, os filmes aparentemente progressistas, são reaccionários pela forma como são feitos. Há quem acuse este “O Patriota” se ser fascista, apesar de mostrar a luta de um povo pela independência. Julgo que “O Patriota” trai a História em nome do espectáculo, mas o público não sai favorecido com a traição. Há crimes que não compensam.

O PATRIOTA (The Patriot), de Roland Emmerich (EUA, 2000), com Mel Gibson, Heart Ledger, Joely Richardson, Jason Isaac, Chris Cooper, Tcheky Karyo, Rene Auberjonois, Tom Wilkinson, Lisa Brenner, Adam Baldwin, etc. 164 min; M/ 12 anos. In “A Bola”, de 6.08.2000

MEL GIBSON

Mel Gibson nasceu Peekskill, Nova Iorque, nos EUA, em 3 de Janeiro de 1956 (há quem afirme que nasceu em 1951).
O pai, Hutton Gibson, transferiu-se de Nova Iorque para Sydney, New South Wales, Australia em 1968. Dizem que o pai ganhou um programa de televisão e aproveitou para levar os filhos para fora dos EUA e da eventualidade de serem recrutados para a guerra do Vietname. Mel Columcille Gerard Gibson estudou na University of New South Wales, e mais tarde estudou arte de representar no NIDA (National Insitutute of Dramatic Art), University of New South Wales, em Sydney, na Austrália.
Em 1977, estreia-se no cinema, com Summer City, de Christopher Fraser. Dois anos depois, com Mad Max, As Motos da Morte, torna-se um actor reconhecido internacionalmente, numa série que continua com Mad Max 2, O Guerreiro da Estrada e Mad Max 3, Além da Cúpula do Trovão. Já na América, uma outra série, Arma Mortífera, fará dele uma vedeta, que títulos como O Ano de Todos os Perigos, Maverick, Braveheart (que Mel Gibson também realiza com assinalável sucesso crítico e de bilheteira), Resgate ou Payback - A Vingança confirmarão como um dos actores de maior sucesso de Holywood. Criou a sua própria produtora (que produziu os dois filmes por si realizados, e também o filme de Wim Wenders, The Million Dollar Hotel).
Mel Gibson, casado com Robyn, tem sete filhos: Hannah, os gémeos Edward e Christian, William, Louis, Milo e Tommy.

Filmografia (como actor e realizador)

1977 - Summer City (Sedução e Vingança), de Christopher Fraser (Austrália)
1979 - Mad Max (As Motos da Morte), de George Miller (Austrália)
1979 - Tim, de Micheal Pate (Austrália)
1980 - The Chain Reaction, de Ian Barry (Australia) (não creditado)
1981 - "Punishment", de Julian Pringle (série de TV) (Austrália)
1981 - Gallipoli (Gallipoli), de Peter Weir (Austrália)
1981 - Mad Max 2: The Road Warrior (Mad Max 2, O Guerreira da Estrada), de George Miller (Austrália)
1982 - Attack Force Z (Comandos da Força Z), de Tim Burstall e Jing Ao Hsing (Austrália)
1982 - The Year of Living Dangerously (O Ano de Todos os Perigos), de Peter Weir (Austrália)
1984 - Mrs. Soffel, de Gillian Armstrong (EUA)
1984 - The Bounty (Revolta no Pacífico), de Roger Donaldson (EUA)
1984 - The River (O Rio), de Mark Rydler (EUA)
1985 - Mad Max Beyond Thunderdome (Mad Max, 3 Além da Cúpula do Trovão), de George Miller (Austrália, EUA)
1987 - Lethal Weapon (Arma Mortifera), de Richard Donner (EUA)
1988 - Tequila Sunrise (Intriga ao Amanhecer), de Richard Donner (EUA)
1989 - Lethal Weapon 2 (Arma Mortifera, 2), de Richard Donner (EUA)
1990 - Air America (Air America), de Richard Donner (EUA)
1990 - Bird on a Wire (Na Corda Bamba), de John Badham
1990 - Hamlet (Hamlet), de Franco Zeffirelli (Inglaterra)
1992 - Forever Young (Eternamente Jovem), de Steve Miner (EUA)
1992 - Lethal Weapon 3 (Arma Mortifera, 3), de Richard Donner (EUA)
1993 - The Man Without a Face (Homem sem Rosto), de Mel Gibson (EUA)
1994 - Maverick (Maverick) , de Richard Donner (EUA)
1995 - Braveheart (Braveheart), de Mel Gibson (Inglaterra)
1995 - Casper (Casper, o Fantasma), de Brad Silberling (EUA)
1995 - Pocahontas (Pacahontas), de Mike Gabriel e Eric Goldberg (voz) (EUA)
1996 - Ransom (Resgate), de Ron Howard (EUA)
1997 - Conspiracy Theory (Teoria da Conspiração), de Richard Donner (EUA)
1997 - Fathers' Day, de Ivan Reitman (EUA)
1998 - FairyTale: A True Story, de Charles Sturridge (EUA)
1998 - Lethal Weapon 4 (Arma Mortífera, 4), de Richard Donner (EUA)
1999 - Forever Hollywood, de Arnold Glassman e Todd McCarthy (EUA)
1999 - Payback (Payback- A Vingança), Brian Helgeland e Paul Abascal (EUA)
2000 - Chicken Run, de Peter Lord e Nick Park (EUA)
2000 - The Million Dollar Hotel (Million Dolar Hotel), de Wim Wenders (EUA)
2000 - The Patriot (O Patriota), de Roland Emmecrich (EUA)
2000 - Wallace and Grommit Go Chicken
2000 - What Women Want, de Nancy Meyers (EUA)

TIM BURTON:
"A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA"


Tim Burton, o realizador de filmes inesquecíveis como “Eduardo Mãos de Tesoura” ou “Ed Wood”, e ainda autor de obras particularmente interessantes como “Beetlejuice”, “Batman” e “O Regresso de Batman” ou “Marte Ataca”, volta agora com outra obra absolutamente notável: “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”.
O universo de Tim Burton é muito pessoal, mantendo-se com ligeiras alterações ao longo da sua filmografia, podendo integrar-se no chamado fantástico gótico, que tem em “Sleepy Hoolow” um excelente terreno para se desenvolver. Quem começa a ver as imagens iniciais desta obra não deixará de recordar-se da Hammer de finais da década de 50, e de todos os anos 60. Os processos de criar e sustentar o clima de terror são muito idênticos, muito embora possa existir uma abismal distância orçamental entre ambas as produções. O filme de Tim Burton é uma super-produção se comparada com os títulos rodados por Terence Fisher, que Burton homenageia directamente, ao escolher para o elenco de “Sleepy Hoolow” alguns dos actores presentes nas películas da Hammer, como é o caso flagrante de Christopher Lee. Acontece que Tim Burton possuiu uma invejável qualidade plástica, rigorosamente prolongada ao longo de todo o filme, compondo cada plano com a minúcia de um pintor inspirado. Depois, a inquietação é sustentada a um nível sempre bastante alto, ainda que, aqui e ali, se insinue uma ironia roçando o humor negro que distancia levemente o terror do horror "gore", onde uma obra tão rica em hemoglobina poderia facilmente cair. Finalmente, a interpretação de um elenco verdadeiramente de luxo e requinte faz o resto, transformando “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça” num excelente momento de cinema fantástico, que não se esgota nos limites de um género. “Sleepy Hoolow” é uma autêntica obra de autor e pode mesmo dizer-se que a personagem central de Ichabold Crane, o inspector de polícia que deixa Nova Iorque para ir investigar estranhos crimes numa longínqua aldeia, é um alter ego do próprio realizador.
Maravilhado pelas máquinas e truques ópticos que estão na base da invenção do cinema, as crianças prolongam o olhar encantando do cineasta para com as imagens que mentem, criando mundos de fantasia, onde a beleza e o horror se contaminam, não permitindo distinguir a verdade da mentira. Esse é o trabalho do inspector, que vem munido de aparelhos "científicos" para analisar fenómenos que ultrapassam a lógica, como seja a existência de um cavaleiro sem cabeça que se vinga de quem o matou assassinado vários habitantes de Sleepy Hoolow com um certeiro golpe de espada que lhes decepa as cabeças. "O Mal pode ter muitas faces, mas o mais grave é aquele que se comete em nome do puritanismo", diz Ichabold, e essa é obviamente a "moral" desta "lenda" que retoma imagens, figuras, ambientes, situações e metáforas de “Eduardo, Mãos de Tesoura” (que se mantém até agora como o melhor filme de Tim Burton).
A galeria de notáveis de Sleepy Hoolow é admiravelmente retratada, com fina ironia num desenho largo, que os actores servem na perfeição. Johnny Deep, na composição de Ichabold, é perfeito. A direcção artística, dos cenários ao guarda roupa é magnífica e o conjunto, muito embora um ou outro rodriguinho do argumento, assegura a esta obra lugar certa nos filmes de culto das próximas décadas. Não perca, portanto.

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (Sleepy Hoolow), de Tim Burton (EUA, 1999), com Johnny Deep, Christina Ricci, Miranda Richardson, Michael Gambon, Casper Van Dien, etc. 105 min; M/ 12 anos. In “A Bola”, de 19.03.2000

Domingo, Junho 25, 2006

MANOEL DE OLIVEIRA:
“VOU PARA CASA”


Para quem anda sempre a dizer que Manoel de Oliveira é um realizador “chato”, “Vou Para Casa” é um bom exemplo de filme que deve ser visto. Não só não é “chato”, como é um filme belíssimo, excelentemente realizado, magnificamente interpretado, com um argumento muito simples, mas carregado de emoção, profundamente sentido, de uma forma que se nos afigura quase autobiográfico. Desta forma, “Vou Para Casa” é um filme que prolonga de certa forma “Viagem ao Princípio do Mundo”, dessa feita tendo Marcello Mastroianni como protagonista, lugar agora ocupado por outro actor da companhia de Oliveira: Michel Piccoli.
Será por Michel Piccoli que apetece começar esta crónica. O seu trabalho é notável, e só um actor enorme conseguiria o milagre que Piccoli consegue em certos momentos desta obra. Ele é Gilbert Valence, um actor prestigiado em Paris, com mais de setenta anos, que irá atravessar um trágico momento. Será no final de uma representação teatral de O Rei está a Morrer, de Ionesco, que irá saber que a mulher, a filha e o genro morreram num desastre de viação. Resta-lhe um neto, e uma existência amargurada. E a sensação de morte, de finitude que se aproxima a passos largos. Gilbert Valence continua a gostar de viver, de passear pelas ruas, de apreciar pequenos pormenores, uns bons sapatos que não magoam os pés, por exemplo. Mas a vida vai mudando à sua volta. A violência existe: é vítima de um assalto (um jovem, tresloucado pela droga, investe para ele com uma seringa em riste, obrigando-o a dar o casaco, o relógio, os sapatos de estimação). A profissão desgosta-o por vezes (surgem convites para telefilmes idiotas, com muita violência e sexo à mistura). Um agente procura atirá-lo para os braços de uma jovem actriz que manifestamente o ama, mas ele recusa (com algum puritanismo, não muito vulgar em Oliveira!). Um realizador americano convida-o a interpretar um papel, numa adaptação de Ulisses, de James Joyce, mas a memória atraiço-a durante as filmagens. Gilbert Valence sente-se cansado e diz apenas: “Vou para casa!” Há algum pessimismo nesta obra outonal, de fim de carreira, quase de renúncia à vida (o que está totalmente em desacordo com o vitalismo deste cineasta nonagenário que não recua perante nenhuma dificuldade, e morde a vida com um apetite voraz).
Na verdade, a forma de Manoel de Oliveira filmar esta obra é absolutamente surpreendente. Que dizer de um plano com Michel Piccoli de costas, sustentado largamente, e que permite ao actor um “tour de force” absolutamente admirável? Que dizer de uma conversa ouvida em off, enquanto a câmara de Oliveira foca os pés dos intervenientes? Que dizer dos ensaios de Ulisses, vistos através do olhar de John Malkovich? Tudo isto nos mostra que Oliveira deslocou o centro de atenção da sua obra do motivo central para aspectos acessórios, deixando a ausência povoar o seu filme. Um ausência que é a base deste filme, um dos melhores da última etapa da carreira de Oliveira.
Um filme que ensina a olhar, que enternece pela forma como olha os personagens, que mistura drama e humor com uma facilidade rara (por vezes relembra Jacques Tati, por exemplo nas cenas de café, com as trocas de lugares), que sobretudo ostenta uma facilidade na arte de filmar que só um mestre em plena maturidade e serenidade de espírito consegue transmitir. Tudo é límpido e puro nesta rara obra de arte que nos reconcilia com a vida. A não perder.

VOU PARA CASA (Je rentre à la maison), de Manoel de Oliveira (França, Portugal, 2001), com Michel Piccoli (Gilbert Valence), Catherine Deneuve (Marguerite), John Malkovich (John Crawford), Antoine Chappey (George), Leonor Baldaque (Sylvia), Leonor Silveira (Marie), Ricardo Trêpa, Isabel Ruth, etc. 90 min; M/ 12 anos. In “A Bola” de 30.09.2001

STEVEN SODERBERGH:
O REGRESSO DE
"OS 11 DO OCEANO”


Os filmes sobre grandes “golpadas” sempre fizeram as delícias do público, e alguns houve que ficaram na memória dos cinéfilos. “The Thomas Crown Affair” e “The Ocean’s Eleven” foram dois deles, e dois que justificaram muito recentemente “remakes” que não deslustraram dos originais. Muito pelo contrário. Em 1960, Lewis Milestone realizara Os 11 do Oceano, interpretado em peso pelo “gang” Sinatra. Com Las Vegas por pano de fundo, “a voz” reunia a seu lado Peter Lawford, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Joey Bishop, Angie Dickinson e Shirley MacLaine, planeando o astucioso assalto a um casino. Para lá do gozo do filme, sentia-se o prazer de rodar na cidade mítica do jogo, cujas noites o grupo de Frank Sinatra tão bem conhecia e curtia. Não era uma obra prima, mas captava o fascínio do jogo e do risco, e transmitia essa sensação ao espectador que dele fez um “filme de culto”. De tal forma que, quarenta anos depois, e com a crise de bons argumentos que impera em Hollywood, se voltaram a lembrar dessa história e Steven Soderbergh a recuperou para o seu mais recente trabalho, depois do ano glorioso de 2000, onde, com “Traffic” e “Erin Brockovich”, foi o grande triunfador da noite dos Oscars.
A nova versão de “Ocean’s Eleven” é um filme sobre a amizade e o “glamour”. Las Vegas é o cenário ideal com o deslumbramento das luzes, a sedução do “poker”, o ambiente saturado de um vício contagiante que vai das mesas de jogo às camas dos quartos de hotel, passando pelos bares e o fumo do tabaco. Há ali de tudo para criar um ambiente de cortar à faca e Steven Soderbergh mostra-o logo na sequência inicial, com Rusty Ryan (Brad Pitt), ensinando a jogar às cartas a promissores jovens de Hollywood, com monstras de mulheres fatais por cenário, a mesa envolta num fumo espesso e os copos misturando-se com fichas e notas de dólares. É aqui que Danny Ocean (George Cloony), recém saído da prisão de New Jersey, onde cumpriu pena de seis anos, vem desembocar, preparando um novo golpe de mestre: roubar três casinos de uma vez só (o Bellagio, o Mirage, e o MGM em Las Vegas), entrando no cofre-forte que tudo indica ser inacessível. Mas aí está uma das seduções do “golpe”: o risco. Para tanto é necessário reunir uma equipa de (onze) peritos em várias especialidades e captar as simpatias de um capitalista que suporte os custos (o escolhido é Reuben Tishkoff, admiravelmente interpretado por Elliott Gould). Mas há algo mais a acrescentar à trama: Danny Ocean não procura só roubar 160 milhões de dólares do cofre de Terry Benedict (Andy Garcia), mas recuperar também a mulher, Tess (Roberts), que vive agora com o dono dos Casinos.
Nestas coisas de grandes golpadas ninguém vai exigir um argumento plausível, mas sim inteligente, original e sofisticado. Todos sabemos que o que nos mostram é altamente improvável, mas o que interessa mesmo é o exercício da fantasia e da imaginação, bem cimentado numa situação inteligente e bem sustentada. É o que acontece, tanto mais que Steven Soderbergh é um realizador com talento e segurança de estilo, e se mostra personalizado mesmo a dirigir um “mega espectáculo” inundado de vedetas. Ele não desiste de rodar longas sequências de câmara à mão, em estilo de reportagem, o que dá uma liberdade de tom inusitada a esta obra.
Há excelentes momentos de muito bom cinema em Façam as Vossas Apostas, desde sequências de acção (todo o desenrolar do golpe é muito bom, mas os preparativos estão á altura do climax) até momentos de fulgurante intimismo (há um encontro entre Danny Ocean e Tess, a uma mesa de jantar, com um diálogo notável de subentendidos e carga erótica e uma excelente representação dos dois actores, mais de Julia Roberts do que George Cloony). O elogio da cumplicidade do grupo não é alheio a uma tradição de filmes sobre a amizade musculada que existe ao longo de todo o cinema norte americano (de que os planos finais do filme são uma elegia de belo efeito plástico e simbólico, com o grupo a partir em direcções diferentes, tendo o edifício do casino e uma fonte luminosa como fundo de uma quimera sonhada e conquistada).
Brad Pitt, George Clooney, Matt Damon, Julia Roberts, Andy Garcia, Elliott Gould ou Carl Reiner são as vedetas de um elenco de luxo que sabe bem acompanhar ao longo de quase duras horas de convívio. A direcção de fotografia de Steven Doderbergh (aqui sob o pseudónimo de Peter Andrews, que já funcionara assim igualmente em “Traffic”), a banda sonora da responsabilidade de David Holmes (que homenageia o filme original, tal como o fazem as aparições de Angie Dickinson e Henry Silva, na assistência do combate de boxe, eles que são dos raros sobreviventes do filme de Milestone), e a direcção artística, cenários e guarda roupa, da responsabilidade de Philip Messina, Keith P. Cunningham, Kristen Toscano Messina e Jeffrey Kurland, são outros tantos motivos que fazem de Ocean’s Eleven um belo pretexto para uma agradável sessão de cinema.

FAÇAM AS VOSSAS APOSTAS (Ocean's Eleven), de Steven Soderbergh (EUA, 2001), com George Clooney (Daniel 'Danny' Ocean), Matt Damon (Linus Caldwell), Brad Pitt (Rusty Ryan), Julia Roberts ('Tess' Ocean), Andy Garcia (Terrence 'Terry' Benedict), Elliott Gould (Reuben Tishkoff), Carl Reiner (Saul Bloom), Scott Caan (Turk Malloy), Bernie Mac (Frankie Cattone), Casey Affleck (Virgil Malloy), Shaobo Qin (Yen Mu-Shuu), Lennox Lewis, etc. 116 minutos; M/ 12 anos. In “A Bola”, de 27.01.2001

ANG LEE:
“O TIGRE E O DRAGÃO”

“O Tigre e o Dragão” ficará seguramente como um dos grandes filmes vistos entre nós no ano de 2001. Depois de ter disputado, taco a taco, os Oscars a “Gladiador” e “Traffic”, o filme de Ang Lee cota-se também como um triunfador internacional, tanto no plano da crítica, como no do gosto de público. Na verdade, sendo uma película que custou cerca de 15 milhões de dólares, tinha cobrado uma receita de mais de 100 milhões, antes de chegar aos Oscars. “O Tigre e o Dragão” esteve nº 1 em vários países asiáticos, durante o verão passado, Estoirou nos “box offices” ingleses no final do ano de 2000, fez receitas impressionantes na Europa e nos Estados Unidos, onde se estreou em versão original, legendada, o que não costuma ser prática muito corrente, e vem demonstrar que afinal não é a língua que impede os grandes sucessos, nem a estranheza dos costumes.
“Crouching Tiger, Hidden Dragon” é um filme sobre o conflito que por vezes opõe a liberdade individual e o dever. Adaptando um dos episódios de um romance escrito no principio do século XX, por Wang Du-Lu (Ang Lee pretende mesmo que este seja o primeiro de uma trilogia retirada dessa obra), a obra pertence ao género Wuxia, que no tempo de Confúcio designava a epopeia dos ágeis lutadores que possuíam poderes extra-ordionários, como uma fabulosa rapidez de movimentos, uma velocidade estonteante e a possibilidade de voar.
Ang Lee, originário de Taiwan, mas residente nos EUA desde 1978, onde estudou Teatro na Universidade de Nova Iorque, e que antes de “O Tigre e o Dragão” nos dera filmes tão diferentes como “Tui shou” (Pushing Hands) (1992); “O Banquete de Casamento” (Hsi yen / The Wedding Banquet) (1993); “Comer, Beber, Homem, Mulher” (Yin shi nan nu /Eat Drink Man Woman) (1994); “Sensibilidade e Bom Senso” (Sense and Sensibility (1995), “A Tempestade de Gelo” (The Ice Storm) (1997) ou “Ride with the Devil” (1999/I), é um apaixonado das artes marciais, e há muito pretendia rodar uma obra como esta. Mas “Crouching Tiger, Hidden Dragon” tem pouco a ver com um vulgar filme de artes marciais, pois o essencial da sua grandeza se encontra precisamente na “sensibilidade” com que nos faz aceitar a aparência de falta de “senso” da sua obra.
Nos começos do séc. XIX, na China, o guerreiro Li Um Bai entrega o “Destino Verde”, uma espada sagrada, à sua companheira e secreto amor da sua vida, Yu Shu Lien. Ele procura abandonar a guerra, apesar de não ter cumprido a promessa que fizera, de dar caça à bruxa Jade Fox, que havia morto com ela o seu mestre. Em Beijing, Yu trava conhecimento com Jen, a filha do governador, que rouba a espada, sob influência de Jade Fox, a força do Mal que a comanda. Jen quer sobretudo demonstrar a sua liberdade, e confirma-o recusando o noivo que os pais lhe tinham destinado, e partindo para o deserto com Lo, um romântico salteador. Este “eastern”, que poderia ser a base de uma “guerra das estrelas”, se passado no futuro, serve sobretudo para profundas considerações filosóficas sobre a natureza da liberdade e de como se servir dela, e também para uma demonstração poética das possibilidades da aventura. Filme iniciático, ritualista, é nesta perspectiva que se têm de entender as sublimes cenas de acção, com os heróis enfrentando-se ao longo de vertiginosas correrias pelo espaço, trepando a telhados, esgrimindo em cima de florestas de bambu, destruindo uma taberna, ou flutuando sobre um lago. A beleza sufocante desta obra mescla de forma admirável o filme de amor louco, absoluto (diz Li Um Bai para a notável Michelle Yeoh: “Mesmo que desapareça no lugar mais obscuro, o meu amor nunca permitirá que eu seja um espírito solitário”), com a aventura em busca de si próprio, através do confronto com os outros.
Curioso ainda referir que são as mulheres que protagonizam esta história de coragem e abnegação, são elas as heroinas e as malvadas, são elas que tomam as iniciativas e conduzem o jogo, são elas que seduzem e por final mergulham do alto da cascata em direcção a um destino que têm de cumprir.
Admiravelmente realizado, numa toada de gesta guerreira cuja beleza formal nos corta a respiração, interpretado de forma sublime por actores de um rigor absoluto, “O Tigre e o Dragão” fica como umas das obras-primas deste início de um novo século. É um filme que se vê e apetece rever logo de seguida. Nada se poderá dizer de melhor.

O TIGRE E O DRAGÃO (“Wo Hu Zang Long” ou Crouching Tiger, Hidden Dragon), de Ang Lee (Taiwan, Hong Kong, EUA, 2000), com Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, Zhang Ziyi, Chang Chen, etc. 120 min; M/ 12 anos. In “A Bola”, de Abril de 2001

RON HOWARD:
“UMA MENTE BRILHANTE”

John Nash, prémio Nobel da matemática em 1994, está na base desta biografia, escrita para cinema por Akiva Goldsman, adaptando uma obra de Sylvia Nasar, e que Ron Howard dirigiu, com resultados interessantes em termos de narrativa, e um sucesso brilhante quer de um ponto de vista de bilheteira, quer no plano do reconhecimento público ao nível dos prémios, sobretudo em solo americano, onde o título cumpre os desígnios de alguma produção imaginada para conquistar nomeações de Oscars e ganhar a credibilidade intelectual – estamos mais uma vez na presença de uma personagem de excepção, de um destino individual que atravessa a doença e consegue superar-se pelo esforço pessoal. Um tipo de herói quotidiano que os americanos gostam de entronizar, normalmente com bons lucros.
John Nash não é, desde a sua juventude, desde os tempos de estudante na Universidade de Princetone, uma personalidade fácil, sequer “amável”. Arrogante e convencido (sintomas de algo que se virá a confirmar tempos mais tarde), procura sobretudo descobrir “a teoria original” que lhe reserve lugar no panteão da fama, sem se preocupar muito com a realidade concreta das aulas e do convívio. A competição é a sua referência. No final dos anos 40, um golpe de asa levá-lo-á à ideia de génio geradora de uma teoria que contradiz e ultrapassa Adam Smith e que revolucionou os dados matemáticos da época, tendo aceitação no campo da economia, da política ou da biologia. E da espionagem. Nash colabora então com os serviços secretos norte americanos, em plena guerra fria, decifrando códigos soviéticos.
É nessa altura que casa com Alicia, e que lentamente se sente envolvido por uma esquizofrenia que o leva a inventar interlocutores e imaginar perseguições sem igual. O seu futuro, de risonho passa a trágico, com prolongadas permanências em hospícios, curas com choques eléctricos, pesada medicação que lhe retira a potência e gera íntimos conflitos familiares, uma vida isolada, o alheamento dos trabalhos científicos e das aulas, enfim, a derrota de uma carreira. Seria, não fora a persistência de Nash e uma força de vontade inquebrantável, que o levaram a enfrentar conscientemente a crise e a tentar resolvê-la por si só. Daí ao Nobel e às canetas dos colegas de universidade depositadas na mesa onde almoça, como preito de homenagem, foi um passo. De gigante. De “uma mente bonita” (no americano) e “brilhante” (no português). De uma “mente” muito complexa, que os argumentistas aligeiraram e condensaram, deixando no esquecimento do “herói” um filho de uma outra ligação, uma prisão por suspeitas de homossexualidade, e a presença de extra terrestres nas suas alucinações persecutórias.
E o filme? Menos brilhante que “O Clube dos Poetas Mortos” (ainda que num mesmo registo), mais mediático que “O Professor” (Mr. Holland’s Opus), tão tortuoso ao nível da representação quanto “Shine” (que mereceria a Geoffrey Rush um Oscar, tal como “Uma Mente Brilhante” pode garantir a Russell Crowe segunda estatueta consecutiva, depois de “Gradiador”), “A Beautiful Mind” assinala inequívocos progressos na carreira de um actor (lembram-se dele em “American Graffitti”?) que passou a realizador e com esforçada competência vai construindo uma obra que, sem ter muito de pessoal, não deixa de despertar alguma curiosidade e por vezes certo encanto. Depois de uns anos de aprendizagem intensiva no campo do filme industrial sem memória, Ron Howard dirigiu alguns títulos saborosos, como “Splash” (1984) ou “Cocoon” (1985), passando pela epopeia “Backdraft” (1991), pelos escândalos da comunicação social em “The Paper” (1994) ou “Edtv” (1999), para culminar com a saga dos astronautas norte americanos, em “Apollo 13” (1995), e uma deambulação pela comédia natalícia em “Grinch” (2000). Nada de muito pessoal, como facilmente se infere da simples listagem, mas alguma competência técnica e um evidente empenhamento profissional.
Com “Uma Mente Brilhante”, Ron Howard não se furtando por vezes ao rodriguinho, opta quase sempre por um registo melodramático correcto e discreto, deixando brilhar as mentes dos seus actores e apagando-se atrás delas. Russell Crowe, bem apoiado nas muletas do costume, neste tipo de obras, recorre a tiques variados para mostrar a grandeza da sua representação. Jennifer Connelly (que já notaramos em “O Segredo dos Abbotts” ou “Pollock”), não precisa de muletas para mostrar todo o esplendor da sua arte. Magistral.
Com oito nomeações (que vão de melhor filme, realizador, actor, actriz secundária, argumento, montagem e música até à maquilhagem), arrisca-se a regressar a casa com alguns Oscars, sendo que o mais merecido é decididamente o de Jennifer Connelly. Mas o filme, o actor, o argumento e a música têm também algumas hipóteses.

UMA MENTE BRILHANTE (A Beautiful Mind), de Ron Howard (EUA, 2001), com Russell Crowe (John Forbes Nash, Jr.), Ed Harris (William Parcher), Jennifer Connelly (Alicia Nash), Christopher Plummer (Dr. Rosen), Paul Bettany (Charles Herman), Adam Goldberg (Richard Sol), Josh Lucas (Martin Hansen), Vivien Cardone (Marcee), etc. 134 minutos; M/ 12 anos. In “A Bola”, de 10.03.2002

E. ELIAS MERHIGE:
“A SOMBRA DO VAMPIRO”

Friedrich-Wilhelm Murnau, realizador de filmes como “Nosferatu”, “O Último dos Homens”, “Tatufo”, “Fausto”, “Aurora” ou “Tabu”, foi um dos maiores cineastas do cinema alemão, um dos autores mais importantes do expressionismo, um dos vultos maiores do cinema mudo, que viria ainda a ter um contributo notável durante o início do sonoro, até desaparecer prematuramente, com 42 anos, vítima de um acidente de automóvel.
Dado a excessos de várias ordem, com uma vida envolta numa áurea de mistério (homossexualidade, drogas?) que construiu sobre si um mito, Murnau morreu como viveu, prolongando a lenda que sobre si próprio se criara. Uma das suas obras mais polémicas nesse aspecto é precisamente “Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens”, rodada em 1921, estreada a 5 de Março do ano seguinte, e que contem vários enigmas nunca resolvidos, entre eles a origem e a verdadeira personalidade do actor que interpreta a figura do vampiro, e que ficou conhecido por Max Schreck (obviamente um pseudónimo: Schreck significa qualquer coisa entre susto, arrepio, medo...). Na verdade, nunca se soube quem realmente interpretou este papel, e chegou mesmo a circular a tese de que teria sido o próprio Murnau a encarnar a figura.
Aproveitando este clima de mistério e enigma, que a presença do “vampiro” acentua de forma dramática, Steven Katz, que já havia escrito “Entrevista com o Vampiro”, pega no tema e transforma-o num guião que aborda as circunstâncias da rodagem de “Nosferatu”, e as relações entre Murnau, o seu actor fetiche e demais equipa. Uma vez terminado, Katz dá o guião a ler a Nicolas Cage, que se propõe produzi-lo, conjuntamente com Jeff Levine, seu produtor habitual, entregando a realização do mesmo a E. Elias Merhige, que se havia notabilizado com uma auspiciosa obra de estreia, “Begotten”. Para a dupla que protagoniza o confronto entre o realizador e o actor, Nicolas Cage pensou de imediato, “nos seus actores preferidos”, John Malkovich (na figura de Murnau) e Willem Dafoe (na de Max Schreck), para lá de contratar um elenco de luxo, onde aparecem ainda Cary Elwes (Fritz Arno Wagner), Aden Gillett (Henrick Galeen), o entertainer e actor inlgês Eddie Izzard (Gustav von Wangenheim), Udo Kier (Albin Grau) e a belíssima Catherine McCormack (Greta Schröder).
O filme de E. Elias Merhige, ao mesmo tempo que relembra as peripécias que rodearam as filmagens de “Nosferatu” e a sede de um realismo “cientifico” do seu realizador (que leva a equipa técnica a trabalhar de bata branca, como se se tratasse de um grupo de cientistas, e faz tender o filme para um quase “documentário sobre um vampiro”), investe numa curiosa análise do trabalho do realizador, associando-o ao vampirismo. Logo no início da obra, Greta Schroder dá conta dessa ameaça, ao dizer que “no teatro o público lhe dá vida, enquanto no cinema a câmara suga-lhe vida.” “A Sombra do Vampiro” engendra assim uma ficção sobre os enigmas de “Nosferatu”, imaginando que Murnau teria contrato um verdadeiro vampiro, oferecendo-lhe como “cachet” o pescoço da bela Greta Schroder, que Max Schreck iria desfrutar no derradeiro plano da obra, antes do sol o reduzir a cinzas.
Cuidada reconstituição de época, inteligente escrita de guião, boa direcção de actores (Willem Dafoe, candidato ao Oscar de Melhor Actor, tem uma boa prestação, mas já lhe vimos melhor), “A Sombra do Vampiro” fica-se, porém, um pouco áquem das expectativas criadas, faltando-lhe alguma densidade, um sopro de talento mais intenso, e menos decorativo, para transformar esta obra num verdadeiro momento único na história do cinema fantástico. Interessante, inteligente, eficaz, mas sentimos sempre que falta algo a este filme para ser “grande”.

A SOMBRA DO VAMPIRO (Shadow of the Vampire), de E. Elias Merhige (EUA, 2000), com John Malkovich, Willem Dafoe, Cary Elwes, Aden Gillett, Eddie Izzard, Udo Kier, Catherine McCormack, etc. 93 min; M/12 anos. in "A Bola", de 6.05.2001

VINCENT GALLO:
“BUFFALO'66”

Billy Brown esteve preso cinco anos por um crime que não cometeu e regressa à sua cidade natal, Buffalo, e a casa dos pais, com um único objectivo: matar o homem que ele julga ser a causa da sua fracassada vida, Scott Woods, um jogador de rugby, que falhara uma jogada decisiva numa final. Com este falhanço de Scott Woods, que muitos julgam ter sido intencional, Bill perdera a aposta da sua vida e ficara com uma pesada dívida. Teve de confessar um crime que não cometera para o débito ser saldado, o que lhe roubou cinco anos de vida.
Regressa sem grandes esperanças. Sabe o que o espera em casa dos pais: uma mãe absorvida pelo rugby e com uma paixão desmedida pelo clube da sua terra, o que a leva a nunca ter perdoado a Billy Brown o facto deste, com o seu nascimento, a ter obrigado a perder uma final – a última vez em que os Buffalos foram campeões. O pai, velho cantor de charme perdido, é um homem ressabiado, violento e agressivo.
Para os visitar, e porque nunca lhe dissera que estivera preso, tem de inventar na realidade uma namorada que imaginara ao longo dos anos de cativeiro. Para isso rapto uma aluna de bailado, Layla, que se passará a chamar Wendy para efeitos de encenação. Layla não representa porem contrafeita este papel, e lentamente vai-se apaixonado por aquele rapaz solitário e frágil na sua aparente violência. Ambos vivem umas horas de um dia que poderia ter terminado em tragédia, mas que o destino se encarregará de desviar para outras áreas. Por volta das duas da madrugada, quando Billy encontra Scott Woods, o jogador que agora é dono de um cabaret de striptease, já não é o mesmo Billy Brown que saíra da cadeia de madrugada, com uma ideia fixa na cabeça e nada a perder. Billy Brown descobriu o rosto de uma mulher, a segurança dos seus braços, e um amor correspondido.
Este é o surpreendente filme de estreia, como realizador, co-argumentista e autor da música, do actor Vincent Gallo, que já conhecíamos, como intérprete, em obras como “O Funeral”, de Abel Ferrara, ou “Arizona Dream”, de Emir Kusturika. Enquanto actor, Vincent Gallo criou já um estilo e pode dizer-se que a sua ascendência latino-americana e a sua própria aparência física o predestinaram para papeis de gangsters e mafiosos. “Buffalo 66” mantem este enquadramento, mas surpreende pela sensibilidade demonstrada, pela destreza da realização, pelo pudor do olhar, pela fulgurância poética e trágica da sua escrita, irreverente, nova, radical, moderna.
Desconcertante nas suas declarações, de um radicalismo extremo, com ideias claras que contrastam com a deambulação, a deriva on the road da personagem, Vincent Gallo dirige uma obra que é por vezes excessiva e rebuscada numa ou outra situação, mas que globalmente se mostra uma das grandes revelações dos últimos anos na América. Há momentos belíssimos nesta primeira obra que investe inteiramente na sua própria novidade. A sequência numa máquina de photomaton, com Billy “dirigindo” Layla (“Nós somos um casal, nós amamo-nos, nós passamos o tempo juntos”) é notável. A refeição em casa dos pais (uma mesa, quatro pessoas, planos alternados que vão elidindo uma das pessoas de cada vez) é de uma construção narrativa invulgar, funcionando admiravelmente. A cena de amor entre Billy e Layla, filmada num plongée vertical que enquadra a cama como um quadro é sublime e culmina numa “Pietá” fetal que “explica” todo filme. Mesmo o genérico inicial, com imagens múltiplas, é particularmente bem logrado. Para lá de um dos melhores actores da sua geração (aqui bem acompanhado pela fabulosa Christina Ricci), Vincent Gallo é agora também uma das mais vivas esperanças do seu cinema.

BUFFALO 66 (Buffalo 66), de Vincent Gallo (EUA, 1998), com Vincent Gallo, Christina Ricci, Ben Gazzara, Mickey Rourke, Rosanna Arquette, Angelica Huston, etc. 105 min; M/ 12 anos. Mundial Vídeo /Lusomundo Audiovisuais. in "A Bola" de 16.04.2000

FRANK DARABONT:
“À ESPERA DE UM MILAGRE”


Frank Darabont assinou até hoje duas longas-metragens e uma curta. Todas elas retiradas de obras de um escritor de sucesso, Stephen King. A "curta" chamava-se “The Woman in the Room”, e creio que poucos a conhecerão em Portugal. A "longa" de estreia foi “Os Condenados de Shawshank” e pode dizer-se que é hoje uma obra de culto para uma certa cinefilia. “À Espera de Um Milagre” tem ainda a curiosidade de se manter fiel ao ambiente de “Os Condenados de Shawshank”: o universo prisional, aqui com a particularidade de tudo se passar no "corredor da morte" (“The Last Walking”, que seria o título original de uma obra de Tim Robbins, com que este filme de Darabont mantém algumas afinidades).
Estamos em meados dos anos 30, numa prisão norte americana, onde existe essa "última caminhada" que conduz à cadeira eléctrica. Guardas e condenados chama-lhe "the green mile", dado que se trata de um caminho de cor verde. Estamos, portanto, em presença de mais um filme sobre a pena de morte. Mas, em lugar de uma obra realista (como algumas mais que ao tema se dedicaram até hoje), esta assume um clima fantástico (ou não estivesse Stephen King na sua origem). Sobretudo com a aparição da figura de um negro de porte majestoso (Michael Clarke Duncan, candidato ao Oscar de secundário), que vai pagar pelo crime de ter morto duas crianças, mas se revela um "bom gigante" com poderes extraordinários, roçando o milagre. A alegoria é óbvia, há mesmo quem vislumbre nesta personagem uma recuperação de Jesus Cristo (ele chama-se John Coffey, J.C.), e tudo aponta para uma caminhada para o calvário e para a martiriologia. Nada a opor, tanto mais que Darabont se diz fascinado pelo cinema de Frank Capra e esta perspectiva o poderia aproximar do tom das suas obras.
Darabont mostra-se até um cineasta com imensas potencialidades dramáticas e o seu filme atinge por vezes excelentes momentos. Mas globalmente falha. E falha, sobretudo, ao nível do argumento, respeitando demasiado o romance de Stephen King que foi inicialmente publicado em fascículos e disso mesmo se ressente. Parece que o escritor começou a obra sem saber como acabava. Foi derivando à medida que ia publicando cada novo episódio. Esse lado errático parece ter sido traumatizando para a unidade global. Há demasiadas personagens, várias histórias paralelas, flash backs aqui e ali, e no final três horas de duração que não se justificam. Começar a história no presente, parece-me um erro (o início e o fim do filme, sobretudo este último, são devastadores). Depois há situações (um guarda sádico, uma preso psicopata, a mulher do director da prisão com um tumor no cérebro, etc.) que nada acrescentam à história central, tal como nos são apresentadas. Uma maior economia de meios teria beneficiado imenso o filme.
Mas há mais. Demasiados guardas muito bonzinhos e um vilão. Demasiados condenados à morte muito simpáticos e um monstro psicótico. Parece que o mundo seria o paraíso, se não houvesse "monstros psicopatas". Este maniqueísmo revela-se de uma ligeireza de conceitos por vezes antipático. Percebe-se que, sem o querer afirmar de forma implícita, este seja um filme contra a pena de morte. Mas, também aqui a obra falha. Poderá concluir-se até que algumas penas de morte se aceitam, mas que as injustiças é que são revoltantes. Tudo isto reduz o alcance deste título, que nos mostra um Frank Daranbont muitos furos abaixo de “Os Condenados de Shawshank”. Com uma ressalva: a interpretação é globalmente excelente. Tom Hanks ao seu nível, David Morse muito bom, Sam Rockwell excelente, Harry Dean Stanton brilhante e Michael Clarke Duncan absolutamente inesquecível. Pena o filme não os merecer.

À ESPERA DE UM MILAGRE (The Green Mile), de Frank Darabont (EUA, 1999), com Tom Hanks, David Morse, Bonnie Hunt, Michael Clarke Duncan, James Cromwell, Graham Greene, Sam Rockwell, Harry Dean Stanton, etc.; 188 mn; M/ 18 anos. in "A Bola" de 16.04.2000


MARC FORSTER:
“DEPOIS DO ÓDIO”


“Monster’s Ball” é uma das boas surpresas da temporada e, apesar do Oscar que Halle Berry ganhou para “a melhor actriz do ano”, o filme talvez merecesse sair da cerimónia com mais alguma coisa nas mãos. Trata-se de um drama (ou melodrama?) de cariz social muito bem realizado, com eficácia narrativa, austeridade de processos, pudor e sensibilidade por um jovem, Marc Forster, suiço-alemão de nascimento, mas que trabalha no cinema norte americano desde 1995, e que até agora dirigira apenas “Loungers” (1995) e “Everything Put Together” (2000), antes de se tornar internacionalmente notado com “Monster's Ball” (2001). Tem neste momento entre mãos “Never Land”.
Tendo como cenário a América profunda, mais precisamente uma pequena cidade sulista, onde o racismo ainda está mais do que latente em muitos dos seus habitantes, “Depois do Ódio” reúne duas personagens que tudo parecia apontar nunca se encontrarem em sintonia: Hank Grotowski (Billy Bob Thornton) é guarda prisional, e acompanha as últimas horas de um negro condenado à morte, que deixa viuva Letitia Musgrove (Halle Berry). Hank é o elo de ligação de uma família de carrascos prisionais que tem no pai, Buck (Peter Boyle), o exemplo típico do racista puro e duro, militarista, machista e fascista retinto, e no filho Sonny (Heath Ledger), a esperança de uma mentalidade em transformação, mais aberta, mais límpida, mais humana e justa. O que o levará a sofrer com a execução a que tem de assistir. Uma prova de fraqueza que o pai não tolera, e que irá precipitar trágicas consequências.
No dia a seguir à execução de um negro que ninguém parece chorar e cujos desenhos apenas perpetuam a sua passagem pela Terra, duas famílias sofrem numa cidade perdida na aridez da paisagem do Sul dos EUA. Por ironia do destino (e intenção dos argumentistas Milo Addica e Will Rokos, também eles candidatos a Oscar), ambas perdem um filho e ambas se encontram na dor. Hank e Letitia, um guarda prisional racista que acabou de executar eficazmente um negro, marido de Letitia, e esta, uma negra revoltada com a injustiça da sociedade onde vive, cruzam-se numa estrada batida pelo vento e a chuva, e juntam-se num mesmo percurso que os irá retirar da solidão mais profunda e permitir alguns momentos de felicidade (“faz-me feliz”, pede Letitia a Hank, antecedendo uma violenta e crua cena de sexo, que é um dos momentos mais conseguidos e pungentes deste belo filme sobre sentimentos em crise).
Marc Forster não é realizador para se comprazer com rodriguinhos e efeitos fáceis. O seu olhar é distante, mas comprometido. A sua câmara filma longamente planos que deixam rastos de situações anteriores (um cigarro num cinzeiro, um guarda chupa abandona na berma da estrada...) e estes indícios permanecem como referências que condicionam o clima geral do drama que, nasce tenso, e se vai acentuando ao longo de uma viagem pelo interior de personagens dilaceradas pelo ódio, que persistem porém em viver e amar, agarradas a esperanças que teimam em permanecer vigilantes.
Para um filme destes, Marc Forster tinha de contar com actores de excepção para impor personagens de difícil caracterização. Billy Bob Thornton é notável como sempre, criando uma figura interiorizada, fria, dura, mas que lentamente vai recuperando (ou ganhando) humanidade; Halle Berry é brilhante num trabalho nervoso, vibrante, emotivo, com os sentimentos a explodiram à flor da pele; Peter Boyle, recorda uma personagem por si interpretada há largos anos, “Joe”, e merecia dele não se terem esquecido nas nomeações para os Oscars de secundários; quanto a Hearth Ledger, que nos lembre, é a sua mais convincente interpretação, lembrando James Dean na derradeira cena em que aparece, confessando o seu incompreendido amor pelo pai (Por aqui passa “A Leste do Paraiso”).
A descoberta do amor a partir de um sentimento de carência é a base desta bela obra que o espectador não deve perder. Não é todos os dias que o cinema nos oferece um filme visualmente tão intenso e tão rigoroso no seu traçado emocional.

DEPOIS DO ÓDIO (Monster's Ball), de Marc Forster (EUA, 2001), com Billy Bob Thornton (Hank Grotowski), Halle Berry (Leticia Musgrove), Peter Boyle (Buck Grotowski), Heath Ledger (Sonny Grotowski), Sean 'Puffy' Combs (Lawrence Musgrove), Dante Beze (Ryrus Cooper), Coronji Calhoun (Tyrell Musgrove), etc. 111 minutos; M/ 16 anos. / in “A Bola”, de 14.04.2002

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