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Uma recolha de críticas da autoria de Lauro António, aparecidas em diversas publicações portuguesas.

quarta-feira, agosto 16, 2006

SUPERMAN, I, II e III

“SUPERMAN - O FILME”

Um ponto no espaço avança em direcção aos espectadores. Nas ruas de Nova Iorque os transeuntes param, olham o céu, e exclamam: “lt's a birds... it's a plane... it's Superman!” (É um pássaro... um avião... é Super-Homem!).
É também Christopher Reeves, envergando o lendário “colant” azul e vermelho, que, por meio das mais sofisticadas trucagens (desde voar preso por arames invisíveis, até ser substituído por um pequeno boneco manejado à distância), se passeia, a loucas velocidades, por sobre as cabeças dos nova-iorquinos estupefactos.
Com os dois braços dirigidos para a frente, rompendo o ar, Superman aí vai em direcção ao crime. Os americanos sabem-no e respiram tranquilamente.
Alguém vela por eles, Christopher Reeves flecte um braço para a direita, mete a mudança, muda de rumo. Estamos no domínio do fantástico. É Superman, o herói, a estrela de cinema. É “Superman - The Movie” (Superman — o filme). O mais caro filme de toda a história do cinema. Pelo menos durante alguns meses, o “record” de 35 milhões de dólares garante esse máximo, que em números portugueses (e pese embora a desva­lorização do escudo), dá qualquer coisa como perto de dois milhões de contos. Calculam o que seja?
Marlon Brando, para aparecer durante os primeiros dez minutos de projecção, pediu, e cobrou, três milhões e setecen­tos mil dólares. Uma aparição a peso de ouro, bem se pode dizer. Bem se pode também saborear o requinte da sua inter­pretação, o branco cabelo platinado, o sumptuoso “décor” de cristal, onde decorre o conselho dos anciões, de que faz parte Jor-EI, cientista, pai de Superman. São dez minutos de antolo­gia, no domínio do fantástico e do maravilhoso. Depois, Krypton, o planeta donde é originário Superman, explode no espaço, e com ele Marlon Brando. Mas o fascínio de “Superman - o fil­me”, esse permanecerá.
Expulso de Krypton no interior de um cometa, Superman irá aterrar numa planície americana. A criança que sairá de dentro do meteorito é recolhida por um casal de camponeses, que, segundos depois, perceberá que acaba de albergar um ser com poderes extraordinários, vindos de outro planeta. 2Encontro imediato”, portanto, “de terceiro grau”, o que John Williams, o autor da partitura musical de ambos os filmes, não deixará aqui de subtilmente sublinhar, insinuando discretamente as no­tas que tornam célebre a “nave”. E a criança cresce, levantando carros com um dedo, correndo ao lado de comboios, multiplicando os seus poderes, mas sempre secretamente, a sós. Na vida diária, o seu nome será Clark Kent, estudante pouco dado a desportos, depois jornalista de reduzida coragem, muita timidez, miopia, pouca inteligência. Dir-se-ia o cidadão médio, aquele que melhor se irá identificar com a figura e com a sua duplicidade.
O americano - e não só! - aprisionado na teia de um emprego de funcionário público, tolhido pelas ameaças externas, temeroso e frustrado, descobre, no outro lado de Klark Kent, em Superman, o sonho utópico da sua vida, a virilidade ignorada, a paixão esquecida, as grandes causas desprotegidas.
Desconhecido no cinema, Cristopher Reeves ganhou este papel em disputa com centenas de outros candidatos. A estatura atlética, a configuração do rosto, sobretudo o queixo quadran­gular, e o à-vontade com que se movimentara frente à câmara obrigaram a escolha. Para interpretar o papel de Clark Kent-Superman, Christopher Reeves ganharia também qualquer coisa como duzentos e cinquenta mil dólares. E um contrato obrigando-o a continuar com a figura, certamente com verbas bem mais elevadas.
Criado em 1938 por uma dupla de americanos, Jerry Siegel e Joe Shuster, “Superman” é a mais antiga criação de super-homem em banda desenhada, nos Estados Unidos. Proveniente de um planeta que desaparece entretanto, Superman é um ser dotado de uma força prodigiosa, podendo voar, e possuindo ainda uma quantidade de outros poderes nada desprezíveis, como por exemplo uma “super visão de raios X”, a emissão de raios caloríficos que vão até à fusão da rocha ou do metal, podendo não só viajar no espaço, mas também no tempo. Todas estas invejáveis características ele as coloca ao serviço da Verdade, da Justiça e da “american way of life”.
Tendo surgido pela primeira vez numa época em que o mundo se encontrava ameaçado pela agressividade bélica nazi, Superman iniciou desde logo a sua campanha patriótica em favor das razões dos “Aliados”, logo, da América. Num momento de ira, perante os “comics books” que diariamente surgiam em toda a imprensa americana e europeia, Goebbels teria mesmo chegado a invectivar o herói em plena reunião do Reichstag: “Esse Superman é judeu”! O que dá bem ideia do poder de penetração desta banda desenhada no meio dos “mass media”.
Perseguidor de criminosos de delito comum, protector de pobres e desprotegidos. Superman, como todos os super-heróis das histórias em quadradinhos, encontra normalmente pela frente supervilões de poderes igualmente desmedidos, como é o caso de Lex Luthor, o imperador do crime, que vive no interior da terra, rodeado de fiéis servidores e belas mulheres fatais. Ele pretende desviar para San Andreas, na costa da Califórnia, alguns engenhos nucleares, que, ao explodirem, demonstrarão o seu poder e prostrarão diante de si os governos de todo o mundo, Gene Hackman, Ned Beatty e Valerie Perrine compõem a trindade do crime, que mais uma vez não compensa, escusado será dizer. Apesar de Superman conhecer igualmente o seu calcanhar de Aquiles e, por via disso, as suas revezes. Na verdade, Superman é vulnerável aos raios de uma substância vinda igualmente do planeta Crypton, a cryptonite, que Lex Luthor consegue arranjar para usar no momento decisivo.
Em banda desenhada, a figura de Superman não é, todavia, das nossas personagens favoritas. Se bem que seja de referir a originalidade e invenção dos argumentos, o recorte da figura, por vezes mesmo a qualidade plástica do desenho, o seu movi­mento e força expressiva, por outro lado não é menos evidente a posição moral e social do herói, denunciando uma mentalidade conservadora, puritana e de um maniqueísmo extremo. No filme de Richard Donner, com argumento escrito e reescrito por vá­rias vezes, primeiramente por Mário Puzo (“O Padrinho”), depois por David Newman, Leslie Newman e Robert Benton, Superman é olhado com uma ironia e um sentido do espectáculo e da diversão que nos reconciliam com a figura. Tudo é visto pelo prisma da fantasia, e as referências obrigatórias, como a redac­ção do “Daily Planet”, em Metropolis, ou o lema de Superman (“pela Verdade, pela Justiça, à maneira americana”) não deixam de ir suficientemente sublinhadas para o humor se encarregar de as situar no seu devido contexto.
“Superman - o filme” - é um pouco da infância de todos nós que regressa, pela magia do cinema que torna os sonhos substância, pela competência e talento de uma equipa técnica que faz da substância sonho e fantasia. No campo em que obviamente se situa “Superman - o filme” - pode bem consi­derasse uma obra-prima. Do cinema espectáculo, do cinema diversão. De um espectáculo vestido com as cores sedutoras de uma certa mitologia romântica, desenvolvendo-se num clima de bonomia e optimismo contagiantes. O cinema redescobre a sua inocência. Ou somos nós que ainda conseguimos ver nele reflec­tida a nossa? “Superman - o filme” - sabe bem. Apetece. Operação de marketing bem planeada?
Sim, mas também o talento conjugado de muitos artífices e a magia de uma aventura como há muito se não via. Este “Superman” é o Tom Mix dos anos 70, cortejando por entre galá­xias Lois Lane, a jornalista. É o outro lado de “Mary Poppins”, a continuação de “Peter Pan” (que, aliás, o filme indirectamente referencia), um rival do “Homem Aranha”, a quem carinhosamente destrói com uma piada de antologia. Deixe, pois, os preconceitos e a falsa erudição à porta do cinema e venha divertir-se com “Superman - o filme”. Como as crianças. (D. N.) 1979

SUPERMAN - O FILME
Título original: Superman - The Movie
Realiza­ção: Richard Donner (EUA, Inglaterra, 1978; Argumento: Mário Puzzo, David Newman, Leslie Newman e Robert Benton; Con­sultor criativo: Tom Mankiewicz; Fotografia (Technicolor, Pana-vision): Geoffrey Unsworth; Música: John Willams; Montagem: Stuart Baird; Produtores: llya Salkind e Pi erre Spengler; Intér­pretes: Marlon Brando (Jor-EI), Gene Hackman (Lex Luthor), Christopher Reeves (Clark Kent-Superman), Harry Andrews (Ansião), Ned Beatty (Otis), Jackie Cooper (Perry White), Sarah Douglas (Ursa), Gienn Ford (Jonathan Kent), Trevor Howard (Ansião), Margot Kidder (Lois Lane), Marc McCIure (Jimmy Olsen), Jack 0'Halloran (Non); Valerie Perrine (Eve), Maria Schell (Vond-Ah), Terence Etamp (General Zod), Susannah York (Lara). Distribuição: Mundial Filmes; Classificação: Não aconselhável a menores de 13 anos; Estreia em Portugal: cinemas Império (Lisboa), Trindade (Porto) e Avenida (Coimbra); 23 de Março de 1979.
SUPERMAN, A AVENTURA CONTINUA!”

A prática das continuações é hoje corrente entre filmes que despertaram grande êxito público na sua primeira apresentação. Mas nem sempre as continuações conseguem assegurar uma mesma qualidade e interesse, em relação às obras originais. De qualquer forma, vai sendo também comum aparecerem por vezes variantes que ultrapassam em valor os filmes iniciais. Basta recordar “Padrinho II”, “O Exorcista II” ou “O Império Contra Ataca” prolongamento de ”A Guerra das Estrelas”. Em qualquer destes casos, o segundo filme é, pelo menos, tão bom quanto o primeiro o era, quando não lhe é decididamente superior.
“Superman II” é mais uma obra que prolonga, com felicidade, uma aventura nascida há dois anos. Na verdade, em 1978, Alexander Salkind lançou “Superman”, numa realização de Richard Donner, película que transpunha para o cinema, com grandes meios técnicos e humanos, raro virtuosismo, algum humor e uma irresistível auréola mítica, a figura lendária de um dos mais célebres heróis da banda desenhada norte-americana. Em 1980, o mesmo Salkind prossegue a aventura, entregando a realização, desta feita, a Richard Lester, um cineasta particularmente dotado para este género de filmes, que aqui não deixa os créditos por mãos alheias, mantendo o espírito e acentuando algumas características desta versão moderna de “Superman”.
Primeiramente haverá que saudar o tom de filme em episódios (o antigo “serial”) que estas obras ressuscitam. Quando no final da projecção, as legendas derradeiras anunciam já que “Superman III” vem a caminho, a plateia reage da mesma forma que há algumas décadas outras plateias reagiriam às imagens derradeiras de uma “jornada” que prenunciava outras. Essa euforia da aventura interminável, que renasce a cada nova peripécia, está bem captada pelo fascínio das imagens de Lester, como o fora igualmente pelas de Doner.
Mas, enquanto Richard Donner realçara o mito, das origens até à idade adulta, documentando os primeiros passos e os primeiros perigos, Richard Lester apanha o mito já em andamento e obriga-se a um outro tipo de percurso. Sabido como é que “Superman” não encontra adversários à altura entre os humanos, há que encontrar inimigos de forças plausivelmente idênticas.
É o que acontece neste “Superman II”, para o qual Mário Puzo, o argumentista de serviço, vai desencantar três vilões de origem extraterrestre e de poderes semelhantes aos de “Superman”, dado que têm de comum uma mesma fonte: o planeta Kripton. Eles retomam, aliás, as imagens iniciais de “Superman I”, quando o conselho dos anciães de Kripton condena ao exílio, no espaço, o traidor general Zod e dois acólitos, Ursa e Non. Pois são estas três personagens demoníacas que regressam, agora libertados mercê de uma explosão nuclear no espaço. Eles regressam para se vingar de “Superman”, o filho de Jor-EI, e simultaneamente para se assenhorearem da Terra. Depois de um prólogo, durante o qual Superman salva Paris da destruição, expulsando da Torre Eiffel uma bomba atómica ali colocada por um grupo de terroristas, o filme lança-se numa narrativa sincopada, jogando com uma montagem de acções paralelas que tendem a uma convergência final. Por um lado, é Superman, que vive um idílio com Lois Lane e chega mesmo a abdicar dos seus poderes para ser somente um homem, enquanto o general Zod e companheiros se aproximam da Terra e Lex Luthor foge da prisão, preparando uma nova tramóia. Finalmente, nos céus de Nova Iorque, irá acontecer o grande confronto: Superman contra Zod-Non-Ursa-Lex Luthor. A emoção atinge o rubro.
Reproduzindo com rara felicidade o clima da banda desenhada donde parte, Richard Lester usa de um humor subtil extremamente divertido, jogando com inteligência com alguns dos símbolos e muitas das situações míticas. Pode, no entanto, sublinhar-se a carga ideológica que um tal projecto comporta. Numa época em que a América se sente complexada por sucessivas derrotas (Vietname, Irão, etc), este episódio de “Superman” parece identificar-se um pouco com o espírito Reagan. A América, depois de ajoelhar, será vingada pela força do seu herói, da mesma forma que Superman, sob as vestes de Clark Kent é derrotado por um truão de bar, e regressa depois para um ajuste de contas derradeiro. O mesmo Superman que repõe a bandeira dos EUA, no cimo da White House, recolocando no lugar próprio a dignidade ameaçada.
Mas, se é possível falar desta carga ideológica subjacente, não menos é de referir o tom burlesco de muitas situações e a ironia que perpassa por toda a obra, gozando abertamente cataratas do Niágara é uma delas).
Servida por excelentes efeitos especiais, magníficos actores (entre os quais será justo fazer sobressair Christopher Reeves, que encarna com dupla justeza a figura de Superman-Clark-Kent), este “Superman II” está destinado a êxito idêntico ao do primeiro episódio. Esperemos que “Superman III” mantenha o nível e a aventura continue. (D. N.) — 1981

SUPERMAN, A AVENTURA CONTINUA
Título original: Superman II
Realização: Richard Lester (EUA, 1980); Intérpretes: Christopher Reeves, Gene Hackman, Ned Beatty, Jackie Cooper, Valerie Perrine, Margot Kidder, Sarah Douglas, Jack 0'Halloran, Terence Stamp, Susannah York, etc; Distribuição: Mundial Filmes; Classificação: Não aconselhável a menores de 13 anos; Estreia: Cinemas Império e Vox (2 de Abril de 1981).


2 Comments:

At 11:12 da tarde, Blogger tandyflynn6144788714 said...

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At 9:46 da tarde, Blogger marcelo capelinha said...

queria saber se vai haver outro filme do super man como continuação.

 

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