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Uma recolha de críticas da autoria de Lauro António, aparecidas em diversas publicações portuguesas.

domingo, junho 25, 2006

ANG LEE:
“O TIGRE E O DRAGÃO”

“O Tigre e o Dragão” ficará seguramente como um dos grandes filmes vistos entre nós no ano de 2001. Depois de ter disputado, taco a taco, os Oscars a “Gladiador” e “Traffic”, o filme de Ang Lee cota-se também como um triunfador internacional, tanto no plano da crítica, como no do gosto de público. Na verdade, sendo uma película que custou cerca de 15 milhões de dólares, tinha cobrado uma receita de mais de 100 milhões, antes de chegar aos Oscars. “O Tigre e o Dragão” esteve nº 1 em vários países asiáticos, durante o verão passado, Estoirou nos “box offices” ingleses no final do ano de 2000, fez receitas impressionantes na Europa e nos Estados Unidos, onde se estreou em versão original, legendada, o que não costuma ser prática muito corrente, e vem demonstrar que afinal não é a língua que impede os grandes sucessos, nem a estranheza dos costumes.
“Crouching Tiger, Hidden Dragon” é um filme sobre o conflito que por vezes opõe a liberdade individual e o dever. Adaptando um dos episódios de um romance escrito no principio do século XX, por Wang Du-Lu (Ang Lee pretende mesmo que este seja o primeiro de uma trilogia retirada dessa obra), a obra pertence ao género Wuxia, que no tempo de Confúcio designava a epopeia dos ágeis lutadores que possuíam poderes extra-ordionários, como uma fabulosa rapidez de movimentos, uma velocidade estonteante e a possibilidade de voar.
Ang Lee, originário de Taiwan, mas residente nos EUA desde 1978, onde estudou Teatro na Universidade de Nova Iorque, e que antes de “O Tigre e o Dragão” nos dera filmes tão diferentes como “Tui shou” (Pushing Hands) (1992); “O Banquete de Casamento” (Hsi yen / The Wedding Banquet) (1993); “Comer, Beber, Homem, Mulher” (Yin shi nan nu /Eat Drink Man Woman) (1994); “Sensibilidade e Bom Senso” (Sense and Sensibility (1995), “A Tempestade de Gelo” (The Ice Storm) (1997) ou “Ride with the Devil” (1999/I), é um apaixonado das artes marciais, e há muito pretendia rodar uma obra como esta. Mas “Crouching Tiger, Hidden Dragon” tem pouco a ver com um vulgar filme de artes marciais, pois o essencial da sua grandeza se encontra precisamente na “sensibilidade” com que nos faz aceitar a aparência de falta de “senso” da sua obra.
Nos começos do séc. XIX, na China, o guerreiro Li Um Bai entrega o “Destino Verde”, uma espada sagrada, à sua companheira e secreto amor da sua vida, Yu Shu Lien. Ele procura abandonar a guerra, apesar de não ter cumprido a promessa que fizera, de dar caça à bruxa Jade Fox, que havia morto com ela o seu mestre. Em Beijing, Yu trava conhecimento com Jen, a filha do governador, que rouba a espada, sob influência de Jade Fox, a força do Mal que a comanda. Jen quer sobretudo demonstrar a sua liberdade, e confirma-o recusando o noivo que os pais lhe tinham destinado, e partindo para o deserto com Lo, um romântico salteador. Este “eastern”, que poderia ser a base de uma “guerra das estrelas”, se passado no futuro, serve sobretudo para profundas considerações filosóficas sobre a natureza da liberdade e de como se servir dela, e também para uma demonstração poética das possibilidades da aventura. Filme iniciático, ritualista, é nesta perspectiva que se têm de entender as sublimes cenas de acção, com os heróis enfrentando-se ao longo de vertiginosas correrias pelo espaço, trepando a telhados, esgrimindo em cima de florestas de bambu, destruindo uma taberna, ou flutuando sobre um lago. A beleza sufocante desta obra mescla de forma admirável o filme de amor louco, absoluto (diz Li Um Bai para a notável Michelle Yeoh: “Mesmo que desapareça no lugar mais obscuro, o meu amor nunca permitirá que eu seja um espírito solitário”), com a aventura em busca de si próprio, através do confronto com os outros.
Curioso ainda referir que são as mulheres que protagonizam esta história de coragem e abnegação, são elas as heroinas e as malvadas, são elas que tomam as iniciativas e conduzem o jogo, são elas que seduzem e por final mergulham do alto da cascata em direcção a um destino que têm de cumprir.
Admiravelmente realizado, numa toada de gesta guerreira cuja beleza formal nos corta a respiração, interpretado de forma sublime por actores de um rigor absoluto, “O Tigre e o Dragão” fica como umas das obras-primas deste início de um novo século. É um filme que se vê e apetece rever logo de seguida. Nada se poderá dizer de melhor.

O TIGRE E O DRAGÃO (“Wo Hu Zang Long” ou Crouching Tiger, Hidden Dragon), de Ang Lee (Taiwan, Hong Kong, EUA, 2000), com Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, Zhang Ziyi, Chang Chen, etc. 120 min; M/ 12 anos. In “A Bola”, de Abril de 2001

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