LA_Arquivo

Uma recolha de críticas da autoria de Lauro António, aparecidas em diversas publicações portuguesas.

sábado, junho 24, 2006

CARLOS SAURA:
"GOYA EM BORDÉUS"


Com uma filmografia vasta e poderosa, Carlos Saura conta com algumas obras absolutamente essenciais na história do cinema, a que se deverá acrescentar a partir de agora este "Goya em Bordéus", uma das mais interessantes biografias de artistas que o cinema nos deu até hoje.
Para o seu filme, Carlos Saura vai encontrar Goya nos derradeiros dias da sua vida, doente, em Bordéus. Tendo a seu lado a filha Rosário, Goya lembra os momentos essenciais da sua existência, desde os tempos em que a sua maior ambição era ser "pintor da Corte" até à doença que o levaria à surdez, a sua paixão pela Duquesa de Alba (e o futuro assassinato desta, envenenada por rivalidades políticas), o exílio, as lutas pela liberdade e contra a tirania de Fernando VII, a concepção de algumas das suas obras mais importantes...
Este um dos aspectos mais interessantes e conseguidos deste filme plasticamente absolutamente fascinante. Saura procura mostrar como se produziram alguns dos momentos desta obra pictórica avassaladora. Goya possuído pelos demónios da mente, criando as "pinturas negras" na sua Quinta do Surdo", nos arredores de Madrid, a sua relação de completa paixão e desejo por Cayatana, os fuzilamentos de Moncloa, os Caprichos, são momentos que nos surgem não "explicados" mas evocados, sugeridos, apontados. Saura utiliza uma técnica, em que se revela de grande maestria (não só aqui, mas também noutras obras, nomeadamente em Tango), basicamente cénica (poucas são as cenas filmadas em exteriores, quase todas o são em estúdio), em que os telões de pano substituindo as paredes permitem efeitos de iluminação que isolam espaços e os associam de forma magnifica. Goya vindo do seu quarto por um corredor iluminado, que depois se apaga para dar lugar à iluminação da sala onde sua filha estuda música é um exemplo notável, mas o filme está pejado de exemplos idênticos.
A colaboração de Carlos Saura com Vittorio Storaro, o fotógrafo italiano de Bertolucci e Coppola, tem-se revelado notável e aqui surge mais um exemplo, muito bem secundado pelo guarda roupa e direcção artística, e a magnifica interpretação de um assombroso Francisco Rabal. Mas também José Coronado (Goya, mais jovem), Daphne Fernández (Rosario) e Maribel Verdú (Duquesa de Alba) se mostram à altura do empreendimento, onde aparecem ainda os prodigiosos actores do El Fura del Baus, grupo de teatro catalão de uma inventiva prodigiosa e que constróem magnificas cenas de multidão.

****** GOYA EM BORDÉUS (Goya en Burdeos), de Carlos Saura (Espanha, 1999), Com Francisco Rabal (Goya), José Coronado (Goya, mais jovem), Daphne Fernández (Rosario), Maribel Verdú (Duquesa de Alba), Eulalia Ramón (Leocadia), Joaquín Climent, Cristina Espinosa, José María Pou, Saturnino García, Carlos Hipólito, etc. 102 min; M/ 12 anos.
GOYA
Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), nascido em Fuendetodos, Saragoça (Espanha), viria a falecer no exílio em Bordéus (França), depois de uma vida acidentada e de uma carreira como pintor que lhe permitiu ficar na História como um dos maiores artistas de sempre, um homem que antecipou e preparou a eclosão de toda a arte moderna. Tendo Velasquez e Rembrant como mestres confessados ("aceita as influências certas, mas procura encontrar o teu próprio caminho", diz Goya à sua filha Rosário), Goya abre os caminhos da arte ao impressionismo, ao expressionismo, inclusive à arte abstracta e ao conceptualismo. Até aos 46 anos andou perto da arte oficial, como retratista da corte e autor de várias encomendas religiosas. Em 1792, vítima de uma doença grave, fica surdo e este acontecimento irá marcar profundamente a sua obra, já que ela se interioriza, indo buscar aos mundos do inconsciente e aos pesadelos da mente inspiração para obras como "Os Horrores da Guerra", "Desastres da Guerra", "Tauromaquia", "Disparates", "Pinturas Negras", alem de telas como "El 2 de Mayo", "La Lucha de los Mamelucos" ou "Los Fusilamentos de Moncloa", todos eles com uma forte componente de crítica ás injustiças sociais e à brutalidade da tirania e da opressão. Dois quadros, "Maja Vestida" e "Maja Desnuda", assinalam a grande paixão da sua vida, a Duquesa de Alba, também conhecida por Cayatana, outra das fontes de inspiração e mulher cuja recordação o acompanharia até ao fim da vida.

CARLOS SAURA
Carlos Saura, nascido a 4 de Janeiro de 1932, em Huesca, Espanha, é um dos chefes de fila do cinema espanhol. Pertence a um geração intermédia, entre a que nos deu Luis Buñuel, Luis Berlanga ou Juan Bardem, e a que revelaria Pedro Almodovar. Saura surge na longa metragem nos anos 60, com filmes como Los Golfos ou A Caça, sua obra de maior projecção nestes anos quentes da ditadura franquista.
Nos últimos tempos tem revisitado alguns aspectos maiores da mitologia espanhola, sobretudo no campo da música, particularmente a partir de 1983, com a fabulosa adaptação de Carmen, a que se seguiram Los Zancos, El Amor Bruxo, El Dorado, Ay Carmela, Sevillanas, Flamengo, Taxi, Pajarico, Tango e finalmente em 1999, Goya em Bordéus. Deve ser um dos cineastas espanhóis mais premiados de sempre, ainda que nunca tivesse conquistado um Oscar, para que já esteve todavia nomeado.

Filmografia como realizador:

1999 - GOYA EN BURDEOS (Goya em Bordéus)
1998 - ESA LUZ!
1998 - TANGO (Tango)
1998 - PAJARICO
1996 - TAXI (Taxi)
1995 - FLAMENCO
1993 -¡DISPARA!
1992 - SEVILLANAS
1990 -¡AY, CARMELA! (Ay, Carmela)
1989 - LA NOCHE OSCURA
1988 - EL DORADO (El Dorado)
1986 - EL AMOR BRUJO
1984 - LOS ZANCOS
1983 - CARMEN (Camen)
1982 - ANTONIETA
1982 - DULCES HORAS
1981 - DEPRISA, DEPRISA
1981 - BODAS DE SANGRE (Bodas de sangue)
1979 - MAMÁ CUMPLE CIEN AÑOS
1978 - OJOS VENDADOS
1977 - ELISA, VIDA MÍA (Memórias de Elisa)
1976 - CRÍA CUERVOS (Cria Corvos)
1974 - LA PRIMA ANGÉLICA (A Prima Angélica)
1973 - ANA Y LOS LOBOS (Ana e os Lobos)
1970 - EL JARDÍN DE LAS DELICIAS (O Jardim das Delicias)
1969 - LA MADRIGUERA (A Colmeia)
1968 - STRESS-ES TRES-TRES (Em Três um é Demais)
1967 - PEPPERMINT FRAPPÉ (Ideia Fixa)
1966 - LA CAZA (A Caça)
1964 - LLANTO POR UN BANDIDO (A Carga dos Rebeldes)
1962 - LOS GOLFOS
1958 - CUENCA
1957 - LA TARDE DEL DOMINGO
1956 - EL PEQUEÑO RÍO MANZANARES
in "A Bola", de 9.9.2000

2 Comments:

At 5:37 da manhã, Anonymous Anónimo said...

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At 7:41 da manhã, Anonymous Anónimo said...

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